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ARTIGOS
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Para entender a crise no setor de comunicação
Por Micheline Matos
- Adital
Que o setor de comunicação no Brasil está em crise, o país inteiro sabe,
difícil é entender sobre as causas, quase sempre ocultas num discurso
midiático, muitas vezes indecifrável para o público em geral. O Instituto de
Estudos e Projetos em Comunicação e Cultura desenvolveu um relatório
aprofundado sobre este tema. O documento "Democratizar a comunicação para
democratizar a sociedade" resgata seriamente e com profundidade os
pormenores para entender esse problema.
O estudo com 12 tópicos sobre o tema destaca os motivos da crise,
ressaltando em parte a legislação brasileira como uma das culpadas. "A
legislação em vigor até 2002, sustentava que os veículos de comunicação não
poderiam pertencer a empresas de capital aberto, mas apenas a pessoas
físicas e, no caso de rádios e TVs, exclusivamente aos donos das outorgas de
concessão. Essa regra fez com que as empresas tivessem administrações
familiares que, em muitos casos, significaram modos de gestão arcaicos,
desperdícios de recursos materiais e humanos, nomeações sem mérito, etc".
Outro motivo relevante destacado pelo documento foi o fato de muitas
empresas, na época da equivalência entre real e dólar, terem feito altos
empréstimos externos e agora tem suas dívidas triplicadas. Segundo um estudo
entregue pelos grupos de Mídia ao Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDS), 80% dessas dívidas estão indexadas em dólares e
83.5% é de curto prazo. Os grandes grupos de comunicação brasileiros,
motivados pela "convergência tecnológica", também investiram em campos
diversos como internet, canais a cabo, telefonia etc, e muitos desses
investimentos não foram recuperados e tiveram de ser vendidos por um preço
inferior.
O relatório também se refere à área de publicidade que, mesmo apresentando
um crescimento durante o ano passado, "não tem demonstrado, desde a década
de 90, o vigor que apresentava em outros momentos. O que significa,
proporcionalmente, menos recursos para as empresas de comunicação".
A dívida
O estudo recorreu à especialista na cobertura sobre comunicações Elvira
Lobato, que explica a dimensão dessa crise. "As empresas de comunicação,
somadas, devem cerca de R$ 10 bilhões, dos quais 60% são dívidas da Rede
Globo, a maior empresa de comunicação do país. O montante investido em
publicidade caiu de R$ 9,8 bilhões, em 2000, para R$ 9,6 bilhões em 2002 (em
valores sem correção). No mesmo período, a circulação de revistas recuou de
17,1 para 16,2 milhões de exemplares e a de jornais caiu ainda mais, de 7,9
para 7 milhões".
Indubitavelmente com números tão negativos, a situação a curto prazo ficou
mais difícil para os trabalhadores da área que, segundo dados do Ministério
do Trabalho, entre 2000 e 2002, foram demitidas 17 mil pessoas.
Exigência dos credores
O relatório tomou a Rede Globo como base principal de análise, pelo fato de
esta ser a maior e mais importante empresa brasileira no ramo. Sobre os
credores o documento informa as exigências dos mesmos: "que as emissoras de
TV aberta, de rádio e os jornais sejam ("newly combined TV Globo entity");
que os credores possam ter participação na nova empresa e que sejam feitos
aportes de capitais por parte dos novos e antigos sócios; que sejam adotadas
práticas de governança corporativa e que sejam superados os aspectos
familiares da gestão da Globo".
Saber para entender
O estudo lista pontos de fundamental interesse para toda população
brasileira. Primeiro que as rádios e TVs exploram outorgas de concessões
públicas que pertencem, em última instância, a todos os brasileiros.
"As emissoras de rádio e TV aberta no Brasil são reguladas pela parte não
revogada do Código Brasileiro de Telecomunicações, de 1962 (que foi alterado
pela ditadura militar em 1967), e por um cipoal de leis, decretos, portarias
e normas que muitas vezes se contradizem. O governo Fernando Henrique
Cardoso prometeu a edição de uma Lei Geral de Comunicação Social Eletrônica,
mas até hoje não existe uma proposta oficial. A maior oposição a essa lei
parte da Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI)
da Câmara dos Deputados, controlada por parlamentares ligados às grandes
redes de comunicação", destaca o documento.
O baixo nível da programação em todos os canais de TV e rádios é algo
notório em quase todos os horários e essas redes de comunicação não dão
nenhum sinal de que tentam repensar para melhorar a programação. Enquanto
isso, o povo brasileiro tem de degustar uma programação vazia de conteúdo e
que muitas vezes só ajuda a aumentar o preconceito e não fomenta um debate
sadio de temas importantes com a população.
"Quase 100% da produção audiovisual brasileira é feita no eixo Rio-São
Paulo, mas os grupos de mídia também não aceitam nenhuma proposta de
regionalização da produção cultural. Projeto neste sentido, da deputada
Jandira Feghali (PCdoB-RJ), tramitou 11 anos na Câmara dos Deputados e agora
se encontra no Senado Federal onde é alvo de críticas das emissoras de TV e
rádio", destaca o estudo.
Também é importante ressaltar que "os veículos de comunicação estão
solicitando vultosos empréstimos do BNDES, com juros inferiores aos
praticados pelo sistema financeiro e com prazos de pagamento dilatados.
Estes recursos têm origem nos cofres públicos".
O que pensa o Governo Lula
Mais do que nunca essas empresas de comunicação estão ansiosas para saber a
postura do governo, que ainda não deu nenhum sinal claro de socorro. Os
lobbies, por sua vez, estão protagonizando conversas e contatos entre os
dois setores. As emissoras não querem que o assunto tome o rumo do Congresso
Nacional, que dará mais visibilidade ao tema, demandará tempo e muito lobby.
O estudo recorreu a uma nota da jornalista Fernanda Galvão, de IstoÉ
Dinheiro, que divulga os números do governo: "R$ 1 bilhão para o
equacionamento das dívidas, sendo que, no máximo, R$ 250 milhões para cada
grupo empresarial". O que não resolve a situação de nenhuma delas. Segundo a
revista, o governo estudaria remeter o tema para a apreciação da Comissão de
Assuntos Econômicos do Senado. Seria uma forma de dividir com o Congresso
Nacional o ônus da decisão. Mas é bom ressaltar que, em um ano de eleições,
o governo não goza de uma posição muito confortável, sem contar os
interesses dos parlamentares nesse jogo da mídia.
O estudo ainda ressalta os últimos acontecimentos como cruciais para
formular a postura do governo. "Some-se a isto à crise instaurada a partir
da denúncia da revista Época (das Organizações Globo) sobre as relações
entre o assessor da Casa Civil, Waldomiro Diniz, e a máfia do jogo. A
cobertura da mídia, a insistência no pedido de instalação de uma Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI) e a divulgação de outros fatos que envolvam
novos personagens podem ser cruciais para aumentar a pressão. E um governo
frágil não é um bom negociador do interesse público".
Mais informações:
www.indecs.org.br ou (jornalista responsável)
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