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ARTIGOS
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MERCADO CULTURAL
Eles querem Você
por Nicolau Soares
Os heróis japoneses superaram a indústria de quadrinhos americana no Brasil
e não aceitam limites
Feriado. Você acorda de manhã e vai ver desenhos junto com seu irmãozinho.
Espera encontrar as versões mais recentes do He-man, dos Thundercats ou dos
Comandos em Ação, como sempre foi desde sua época. Em vez disso, o que
encontra são figuras com olhos e bocas enormes envolvidos em histórias que
variam da costumeira salvação do mundo ao insólito primeiro dia na escola.
Você se lembra de coisas assim, afinal, já assistiu ao Robô Gigante e até
pegou uma parte dos Cavaleiros do Zodíaco. Mas de onde saíram tantos
desenhos japoneses?
Animações e quadrinhos japoneses estão em franca expansão no mercado
brasileiro. Hoje, mais da metade dos desenhos exibidos nos programas
infantis de televisão são nipônicos, chamados de animês. Quanto aos
quadrinhos, a situação é mais assustadora. Mesmo antes da chocante retirada
da gigante editora Abril, os mangás já eram maioria absoluta entre as
publicações regulares, com mais de quinze títulos contra cerca de dez
americanos. "É uma onda que já dura alguns anos e ainda não mostra sinais de
fraqueza", conta Sidney Gusman, editor executivo da linha de mangás da
Conrad Editora, uma das primeiras a investir pesado no estilo. "No Brasil,
hoje com certeza nós vendemos mais que os quadrinhos de super-heróis
norteamericanos", completa.
Esse fenômeno não é tupiniquim. No mundo todo os heróis nipônicos vêm
ganhando espaço, mesmo em países com tradição em histórias em quadrinhos,
como Espanha e Itália. Até mesmo nos EUA, berço de alguns dos maiores ícones
da cultura de massa, como Batman e Homem-Aranha, cujo filme está rendendo
bilhões aos cofres de Hollywood. É por cima desse tipo de lenda que a
cultura oriental está passando para chegar até nossas casas.
E não pense que a invasão não tem importância. Junto com a avalanche de
personagens carismáticos de desenhos caricaturais, sem muita preocupação com
o realismo, vêm costumes e valores do povo japonês, da mesma forma que
Hollywood nos bombardeia há décadas com o "american way of life". É o início
de um embate entre duas poderosas indústrias, no qual as maiores vítimas
podem ser, como até agora, as culturas dos países periféricos.
Essa silenciosa invasão oriental não aconteceu de uma hora para outra. Os
mangás e animês são produtos conhecidos há muito tempo pelo público
ocidental, mas numa escala menor. Mas é dentro do Japão que essa máquina
mostra sua força. Lá, os mangás atingem tiragens gigantescas, na casa dos
milhões de exemplares. A revista Shonen Jump, por exemplo, é uma das
semanais mais vendidas e de longe a revista em quadrinhos com maior
circulação do mundo, com cerca de 6 milhões de exemplares por semana.
Uma explicação sobre o modo de editoração japonês. As revistas não são
destinadas a um personagem, como nos EUA. A Shonen Jump traz entre
dezessete e dezoito histórias de personagens diferentes em suas 420 páginas.
Apenas as histórias de maior sucesso ganham edições especiais para
colecionadores. Como são baratas, são consideradas descartáveis e jogadas
fora logo após o consumo. É bastante comum encontrar mangás nos metrôs e
trens do Japão.
Quanto aos animês, geralmente são subprodutos dos mangás. "Existe um caminho
básico no mercado japonês, em que um personagem começa nos quadrinhos,
depois vira desenho animado e, se for ainda mais bem-sucedido, videogame",
diz Júlio Moreno, publisher da JBC editora, que divide o mercado brasileiro
de mangás com a Conrad. "E no caminho sempre surgem bonecos, brinquedos,
sapatos e todo tipo de produto inspirado nos personagens", ressalta.
É um complexo sistema de merchadising que favorece muito na divulgação. Um
ajuda a vender o outro, inundando o mercado com produtos interligados. Esse
foi um dos fatores que influenciaram nesse crescimento dos mangás. "Os
leitores de quadrinhos de hoje cresceram assistindo Cavaleiros do Zodíaco. A
próxima terá crescido com Pokemón, Digimon e outros. Eles estão acostumados
com a linguagem oriental", destaca Moreno.
Outra característica do mercado editorial japonês é sua quantidade de
gêneros. Enquanto no ocidente as histórias em quadrinhos são destinadas a um
público infantil ou adolescente, geralmente masculino, no Japão todas as
faixas etárias estão representadas, bem como os dois sexos. É comum ver
executivos ou mães de família lendo mangás. "Os japoneses não têm o
preconceito que há por aqui, de que quadrinhos é coisa de criança e
adolescente", lembra Gusman. "Uma revista séria como a Vagabond, que visa a
um público adulto, vendeu cerca de 22 milhões de cópias só no Japão",
completa.
Os mangás, na verdade, são parte importante da cultura japonesa. "As pessoas
crescem com eles dentro de casa e adquirem o hábito. É como as novelas aqui
no Brasil, são parte de um contexto", compara Moreno. Isso que gera uma
extrema segmentação do mercado. Existem mangás para garotos, com heróis ou
sobre esporte, para meninas, que falam de amor, para homens adultos, para
senhoras, para jovens mães, entre tantos outros, cada um com sua revista
específica. A já citada Shonen Jump (algo como pulo jovem) destinasse a
adolescentes masculinos entre 12 e 15 anos. Ela gerou alguns filhotes, como
a Shojo Jump (para meninas), a Young Jump (para adolescentes mais velhos),
Business Jump (para jovens de negócios) e Super Jump (para jovens adultos).
"A indústria do mangá, com seus diversos gêneros, é mais sofisticada do que
a do quadrinho americano", destaca Waldomiro Vergueiro, coordenador do
Núcleo de Pesquisa em Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e
Artes da USP (ECAUSP). "A tendência das editoras ocidentais é essa, sair um
pouco dos adolescentes masculinos e buscar outros públicos", prevê.
Mas por que os quadrinhos exercem tanto fascínio sobre os japoneses? Para
Vergueiro, os mangás são uma válvula de escape para eles. "A sociedade
japonesa é muito regrada. Todas as relações sociais são regidas por uma
disciplina extrema", lembra. "No mangá as coisas são mais leves. O
homossexualismo, por exemplo, é tratado com naturalidade, bem como os
relacionamentos entre adultos e adolescentes, quando lá ambos sofrem
preconceito muito forte, mais até que aqui", defende.
Entretanto, se a reprimida sociedade nipônica precisa dessa fuga tão
drástica, o mesmo não pode ser dito do ocidente, mais liberal e expansivo. E
os heróis tradicionais, com seus superpoderes e sua disposição para fazer
justiça, pareciam sólidos até agora em nosso imaginário. Mas as vendas de
quadrinhos ocidentais estão caindo em todo lugar, desmascarando nossos
heróis. "As histórias dos quadrinhos tradicionais não se renovam. Elas se
tornaram narrativas fechadas que giram em círculos e os personagens se
tornaram caricaturas deles mesmos. Isso inibe a entrada de novos leitores",
explica Vergueiro.
Nossa cultura foi e ainda é fortemente influenciada pela inundação feita
pela indústria cultural norte-americana. Isso dificulta, por exemplo, a
formação de uma linguagem nacional característica no cinema. A entrada de um
novo pólo dominador não vai melhorar as coisas. "Toda indústria cultural
busca a hegemonia", diz Vergueiro. "Os mangás e animês estão se estruturando
para dominar outros mercados. Guardadas as proporções, é a mesma idéia de
Hollywood".
De uma forma ou de outra, é mais uma complicação para os quadrinhos
nacionais. "A indústria nacional não está criando novas saídas. Alguns
utilizam elementos americanos, outros elementos japoneses, mas não há uma
criação com características próprias", lamenta Vergueiro.
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