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ARTIGOS
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UMA TAL DEMOCRACIA McDONALD'S
por Anselmo Massad
Filé de eleições de anos em anos, empresas de comunicação com liberdade de
imprensa, candidaturas com supostas condições de igualdade e uns partidos
políticos para dar uma temperada. Estaria pronta a tal democracia, certo?
Digamos que esse prato exige outros ingredientes
"Cessar operação. A vaca foi para o brejo", dizia um telegrama emitido do
gabinete do presidente do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia durante a
apuração de votos na eleição para governador do Estado em 1986. O então
candidato do PMDB, Waldir Pires, recebeu de membros do Sindicato dos
Correios e Telégrafos uma cópia do telegrama que expunha a tentativa de
fraude na eleição em benefício do candidato de Antônio Carlos Magalhães,
Josaphat Ramos Marinho.
Os aliados de ACM esperaram os resultados do interior para tentar algum
malabarismo na capital, cujas urnas só foram abertas na tarde do segundo dia
após a eleição. No entanto, Pires vítima de fraude novamente em 1994, nas
eleições ao Senado, denúncia barrada na justiça baiana conquistou ampla
vantagem, que não poderia ser compensada em Salvador.
Ainda que escandalosas, as fraudes não são "privilégio" da Bahia nem do
Brasil. Basta lembrar do escândalo Proconsult, no Rio de Janeiro, em 1982.
Houve adulteração na totalização dos votos descoberta apenas por uma
contagem paralela realizada pela Rádio Jornal do Brasil. Ou mesmo das
recentes eleições para presidente dos EUA, em 2000. Contagem paralela pedida
por um consórcio de jornais que incluía Washington Post e New York Times,
comprovou que Gore tinha vantagem sobre Bush que, mesmo assim, levou.
A pior parte dessa história toda é o fato de que as fraudes não são o maior
dos obstáculos para a democracia, apenas o mais grosseiro. Pior que isso é
acreditar que eleições sem fraudes garantem a democracia.
"No Brasil, quando a urna eletrônica foi introduzida nacionalmente, em 1998,
isso ficou muito claro", lembra a antropóloga Lineimar Pereira Martins,
autora de um estudo sobre as disputas presidenciais daquele ano. "As
campanhas diziam coisas como OVote e seja bem-vindo à democracia¹. Isso é
uma forma de tentar reduzi-la ao simples exercício do voto", aponta.
Além de confinar a participação popular às eleições, o voto não é dado por
posição política ou preferência partidária. "As pessoas se expressam por
questões de imagem, clientelismos ou coronelismos. No caso de Fernando
Henrique, ele não foi eleito como opção de política econômica, mas em cima
da imagem de homem erudito, culto e poliglota, que não representa o
brasileiro, mas aquilo que ele queria ser", sustenta. Isso ficou claro em
diversos momentos durante a campanha e em reportagens veiculadas pelos
grandes meios de comunicação que o apresentavam como o presidente ideal em
todos os âmbitos. Nessa empreitada, valia de tudo, até reportagem comparando
as "candidatas" a primeira-dama, como a de Veja de 21 de setembro de 1994.
Mas não é preciso esperar a campanha para encontrar a mídia apontando para
um lado só. "Em certos momentos, há unanimidade da mídia em torno de certas
questões que começa a ameaçar a competitividade", nota André Singer,
professor de Ciências Políticas na USP e que se tornou recentemente
porta-voz do candidato Lula (PT). Para ele, o aumento da concentração na
propriedade dos meios de comunicação é responsável por restringir o debate
democrático.
"O caso das privatizações é bem significativo. Elas contaram com o apoio
maciço da mídia mesmo havendo uma parcela da população ligada aos partidos
de esquerda contrária ao processo", exemplifica. Singer cita ainda o
próprio modelo econômico, da estabilização feita sob o acúmulo de dívida
externa, cujas conseqüências baixo crescimento e desemprego aparecem
pouco nos meios de comunicação.
"Já estive mais convencido do que hoje de que houve condições relativamente
iguais para os candidatos à presidência, mas não afirmaria categoricamente
que a democracia no Brasil está comprometida, apesar de haver indícios que
podem preocupar", considera. Ele observa que a discrepância das verbas
disponíveis para os candidatos foi um pouco amenizada pela militância mais
acentuada dos partidos de oposição. "Além disso, algumas medidas garantidas
pela lei, como o horário eleitoral gratuito, permitem um mínimo de acesso
dos candidatos aos principais veículos de massa", destaca.
Maria Victoria Benevides, chefe do departamento de Filosofia da Educação da
USP, acredita, no entanto, que esses elementos não são suficientes para
garantir a democracia brasileira. Em sua opinião, ela não existe. O acesso
aos meios de comunicação e o financiamento das campanhas desequilibram as
eleições, defende. "- Não há fiscalização para evitar excessos de exposição
dos candidatos ou abusos do poder econômico, com controle sobre doações e
caixa dois", argumenta.
Apesar de admitir que condições ideais não existem em lugar nenhum do mundo,
Maria Victoria cita a Suíça como um exemplo avançado de democracia. Lá, além
de consultas populares para decidir a aceitação ou não de certas propostas,
existe uma forte regulamentação sobre o tempo diário nas TVs, o espaço em
outdoors e a visibilidade em geral das idéias de ambos os lados, para
garantir que as posições tenham as mesmas possibilidades.
"Os candidatos para altos cargos nos EUA são anunciados como carros novos. É
isso que reduz o debate de idéias aos menores níveis da história", lembra o
jornalista e crítico de mídia norte-americano Norman Solomon. O peso da
imagem do candidato na campanha leva os marqueteiros a deixarem as propostas
em segundo plano, o que dificulta a diferenciação entre os candidatos.
Aliado à retirada do debate está o distanciamento entre o Estado e a
sociedade. André Singer explica que, ao se voltar para os interesses de uma
minoria, o Estado se esvazia dos interesses sociais vivos. A única correia
de ligação que resta entre eles são os partidos políticos. "O problema é que
os partidos viram muito Estado e pouca sociedade, porque suas principais
figuras são funcionários do Estado, prefeitos, deputados, vereadores",
afirma.
Nesse contexto, ele descreve um processo paradoxal que ocorre no Brasil. Ao
mesmo tempo em que ocorre aumento da adesão, há crescente desencanto com a
democracia. "A construção da cultura política, pela qual os países europeus
passaram há mais de 60 anos, convive com o processo mais moderno, que ocorre
hoje por lá, de desilusão com a democracia", sustenta.
Maria Victoria salienta que aqui ainda que escondida pelos marqueteiros e
pela mídia uma mudança de candidato ou partido pode representar mais ou
menos garantias mínimas de sobrevivência. "Na Europa e nos EUA, como os
direitos mínimos já estão assegurados, as mudanças no governo não têm
implicação direta no cotidiano e o voto diz respeito à economia, aos
impostos, à política externa, à ideologia, a que grupos estarão no poder
etc. E essa distância é uma das causas da apatia e do crescimento da
abstenção por lá."
O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos é um dos principais
ideólogos da radicalização da democracia. Para ele, experiências de
democracia direta, como o Orçamento Participativo de Porto Alegre, são a
grande saída para a crise atual. "Vivemos em muitas sociedades democráticas
que o são apenas em baixa intensidade. O jogo democrático fica restrito ao
sistema político e mesmo aí com muitas limitações, sem nem permitir a
participação dos cidadãos, sem democratizar as relações de poder em casa, na
família, na rua, na fábrica, na comunidade, nas relações internacionais",
aponta.
Ele acredita que a democracia participativa deveria complementar a
representativa, criando sinergias e convivendo bem. E vai mais longe,
defendendo que a democracia deve ser a base comum de toda a sociedade,
incluindo suas organizações. "Ao invés de se articular com o mercado,
queremos que o Estado se articule com a sociedade civil, com a comunidade,
com o Terceiro Setor, a economia solidária e as ONGs. Isso é uma grande
responsabilidade para esses movimentos, já que também deverão ser
democráticos, transparentes e sujeitos ao controle público", descreve.
"A liberdade é uma conquista constante", afirma Norman Solomon. Por mais que
eleições sejam necessárias à democracia, não são suficientes. "Não posso
imaginar uma democracia real sem eleições, mas vemos com freqüência eleições
sem democracia. Para que ela exista, é necessário estendê-la a outras áreas,
como os ambientes de trabalho e a economia, e que permita ainda o livre
fluxo de informação e opinião sem monopólio de interpretação da mídia",
opina.
Legenda: A regra do jogo: direita, esquerda, centro? O que vale é ganhar a
eleição.
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