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     ARTIGOS
O “mundo encantado” dos piratas fica em São Paulo

Por Arthur Braga Repórter da Agência Brasil

Galeria Pagé vive, há mais de 40 anos, da venda de mercadorias contrabandeadas.
Blitz da polícia não impede que a Galeria Pagé, um dos principais centros de comércio ilegal do país, continue funcionando normalmente


São Paulo - Na entrada do prédio, ainda na calçada, o cliente é atacado. Quase uma dezena de vendedores avança sobre o consumidor em potencial para oferecer DVDs, vídeo games, canetas, cabides, secadores de cabelo e CDs. São produtos piratas, mercadorias contrabandeadas, uma pequena amostra do “Mundo Encantado das Compras”, como é conhecida a Galeria Pagé (assim mesmo, com “g”), um dos maiores centros de comércio ilegal em todo o Brasil. A galeria recebe 1,5 milhão de pessoas, em vésperas de Natal. Segundo a Polícia Militar, até 1,5 milhão de pessoas, em vésperas de Natal, chega a visitar diariamente a região da rua 25 de Março, onde fica a Pagé. Tamanha movimentação é um transtorno: o prédio é antigo e tem apenas três elevadores para atender o público. Um deles está quebrado, informa o segurança que organiza a fila indiana no térreo. Uma parte das pessoas prefere esperar alguns minutos a subir a pé os doze andares do edifício.

É preciso paciência e fôlego. Os corredores e os lances de escada na Pagé têm pouco espaço para os milhares de pessoas que passam por ali todos os dias. Não se caminha sem esbarrar em alguém a cada metro. E não são apenas as 170 lojas. O espaço nos corredores é disputado por dezenas de outros vendedores e compradores com sacolas e pacotes. Carregadores gritam para pedir passagem: “Olha o pesado!”. Empurram com pressa e sem medo os carrinhos de mão abarrotados de mercadorias ilegais.

Relógios são os produtos mais vendidos
Ninguém reclama. A atração ali, definitivamente, não é o ambiente. Em todos os andares, chegam e saem pessoas pelos elevadores de serviço com caixas e pacotes que abastecem de mercadorias as lojas. Os relógios de pulso estão entre os produtos com mais destaque. São para todos os bolsos e gostos. É possível encontrar modelos dourados, prateados, similares aos de marcas famosas, brilhando dentro de saquinhos plásticos transparentes. O “mais em conta”, diz um vendedor, “sai por R$ 10”.

Como São Paulo, a Pagé não pode parar. A rotina da galeria não demorou nem sequer um dia para voltar ao normal depois de duas “visitas-surpresa” de uma força-tarefa policial, pouco antes do Natal passado. Em 4 de dezembro, cerca de 20 mil sacos de mercadorias foram apreendidos - um prejuízo de R$ 20 milhões para os ilegais. No dia seguinte, os jornais noticiaram: tudo já estava funcionando normalmente. Pouco mais de uma semana depois, os policiais voltaram ao local. Desta vez foram 4 mil sacos, mais R$ 4 milhões em mercadorias.

As megablitze contaram com a participação de policiais federais, civis, fiscais da Secretaria da Fazenda do Estado, Receita Federal, Ministério Público Estadual e deputados federais membros da CPI da Pirataria, criada para investigar o comércio ilegal no país. Durante as vistorias, mercadorias e documentos foram apreendidos e diversas lojas que funcionavam irregularmente tiveram as portas fechadas.

Brinquedos, fruto de contrabando, entram no país sem pagar impostos Hoje, quem vai à galeria percebe que a maior parte das 170 lojas está aberta. As poucas lojas fechadas passam por reformas, disseram alguns dos freqüentadores. Nas prateleiras e bancas, estão expostos óculos, brinquedos, eletrônicos, tênis, relógios e CDs, entre outros produtos.

Entre as apreensões de dezembro, segundo a Secretaria da Fazenda paulista, 90% dos produtos são fruto do “descaminho”, ou seja, contrabando, que entra no país sem pagamento de impostos. As falsificações respondem por 8% do que foi recolhido, e o restante, 2%, se refere ao que sonega apenas o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços, o ICMS.

A coexistência de produtos legais e falsificados fica evidente em uma loja que vende perfumes importados. O produto masculino da marca Lacoste com 30 ml “original”, ou de “primeira linha”, como denominam os comerciantes - procedente de Miami, nos Estados Unidos, segundo a balconista - sai por R$ 38. O “similar”, ou “genérico” - como chamam outros vendedores - custa R$ 10. O mesmo perfume em uma loja da Lacoste, no Shopping Iguatemi, na região de Pinheiros, não sai por menos de R$ 99.

Pode se encontrar perfumes de "primeira", procedentes de Miami, e os "genéricos" Os comerciantes evitam falar sobre a documentação dos produtos, principalmente no que diz respeito à emissão de nota fiscal no ato da venda ou se estão em ordem com o recolhimento de impostos. De acordo com o delegado tributário José Clovis Cabrera, da Secretaria da Fazenda, das 170 lojas fiscalizadas na blitz de dezembro, 140 estavam em situação irregular ou não tinham o cadastro de funcionamento. “Para combater a pirataria e o comércio ilegal é necessário repetir sistematicamente a ação realizada pela força-tarefa”, diz Cabrera.

O balanço da operação mostrou que o comércio clandestino da Pagé movimenta R$ 17 milhões por mês, com produtos “made in” China, Coréia e Taiwan, tendo o Paraguai como porta de entrada dessas mercadorias ilegais. Na avaliação do economista Marcel Solimeo, diretor de economia da Associação Comercial de São Paulo, o comércio ilegal acarreta prejuízo para o comércio e a indústria. “Como temos uma tributação excessivamente elevada, a diferença entre pagar e não pagar os impostos é muito grande”, diz. Segundo ele, isso facilita o comércio clandestino. No caso dos produtos estrangeiros vendidos ilegalmente no Brasil, Solimeo afirma que a sociedade é que acaba perdendo. “Aquele produto gerou emprego em outro país, e o produto nacional perde a competitividade com os importados, gerando desemprego”, explica.

Ambulantes revendem os produtos da Galeria Pagé
A Galeria Pagé iniciou as atividades em 1963 e se considera “o primeiro shopping de São Paulo”. Com preços mais atraentes que os shoppings “normais”, consolidou-se como centro de comércio popular. O centro hoje não recebe apenas clientes comuns, que procuram um toca-fitas para o carro ou compram presentes para os filhos no Natal. Já virou também centro de atacado. Milhares de “sacoleiros”, vindos de todo o país, atuam como atravessadores e revendem os produtos nas cidades do interior. A Pagé tem até página na internet (www.galeriapage.com.br), onde se lê a meta principal da galeria: “incrementar e facilitar a vida e as compras”.



Fonte: www.radiobras.gov.br