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Cinema
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BATMAN BEGINS
Valmir Junior*
O melhor da série, sem dúvida. "Batman Begins" faz trocadilho com o início da história do homem-morcego - que foi enterrada devido aos dois carnavais de Joel Schumacher: "Batman Eternamente" e "Batman e Robin" - na verdade, surge o re-início.
Entram peças como o diretor Christopher Nolan ("Amnésia", "Insônia"), o roteirista David Goyer e o protagonista Christian Bale ("Reino de Fogo", "Psicopata Americano", "O Operário"), além de um elenco que beira o estelar e que segura muito bem o filme. Nada de pompa e circunstância: aqui o Cavaleiro das Trevas faz jus ao nome e retoma a atmosfera densa que permeia suas HQs, sem cair no estilo gótico de Tim Burton, que até então com seus "Batman - O Filme" e "Batman - O Retorno", tinha os melhores filmes do herói em mãos.
Goyer escreveu com cuidado, com esmero, enquanto Nolan traz dimensão ao Bruce Wayne plano de seus intérpretes anteriores (Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney), levando Christian Bale a realmente atuar como um herói, antes de atingir a marca "super". O herói sofre, o herói erra, o herói personifica a porção do "bem" que nós temos, mas carrega consigo também a centelha do "mal", que nós todos também temos. O Bruce Wayne de Christian Bale é esse: diversas camadas superpostas, como deve ser. E Nolan, para trazer essa tridimensionalidade à personagem, conta a história do surgimento do Batman. Não um pequeno flashback, mas um que dura metade do filme. Bale, pela aura que confere ao personagem, consegue fazer a platéia querer entender o que Bruce Wayne é, para depois ver Batman agindo. Não importa ver o super-herói, importa ver o herói, a pessoa que, como nós, tem suas angústias, problemas e determinações.
O filme começa com o episódio em que Bruce, em sua infância, confronta morcegos e depois pula para o assassinato dos pais de Bruce, em que ele rumina sua culpa em relação ao incidente. Depois viaja com o milionário ao Oriente, onde ele está preso e depois entra em sua jornada ao templo de Ra's Al Ghul (Ken Watanabe). Trata-se aqui de mostrar como a personalidade de Bruce endureceu, o que poderia ter colocado a perder se não quisesse buscar justiça e como realmente aprendeu sobre a vida e a morte com Henri Ducard (Liam Neeson) e a Liga da Sombras. Ducard é seu mestre, ensina-lhe os truques do ninjitsu, a arte dos ninjas, a filosofia e ali, Ducard, sem saber, funda as bases para o surgimento do Batman. Bruce entende que não deve se vingar de seus pais e nem fazer justiça com as próprias mãos: deve tornar-se o paladino da Justiça em sua cidade-natal decadente. E eis que finalmente somos levados a Gotham City.
A Gotham, em si, é uma metrópole como outra qualquer, um arquétipo da sociedade moderna, reunindo ali diversos tipos que não devem nada aos tipos do Brasil: juízes e advogados corruptos, psiquiatras paradoxalmente insandecidos, gângsters arrogantes, policiais que se acham donos da cidade, diretores de grandes companhias que querem o controle total e outros. Mas ainda existe espaço para pessoas de bem, como a amiga de infância de Bruce, a promotora da Justiça Rachel Dawes (Katie Holmes); o cientista Lucius Fox (Morgan Freeman); o tenente da polícia James Gordon (Gary Oldman); e, sem dúvida a personagem mais forte do filme, o mordomo de Bruce, Alfred Pennyworth (Michael Caine). Todos ajudam Batman na luta contra o tráfico, o crime, a violência e a corrupção de Gotham City, aqui representada pelo gângster Carmine Falcone (Tom Wilkinson), o psiquiatra Jonathan Crane (Cillian Murphy) e o diretor da Wayne Enterprises Richard Earle (Rutger Hauer). Para não revelar a história, deixo assim descrito, certo?
O importante é que, depois do grande flashback, vemos todo o esforço de Bruce em se transformar em Batman, e o filme aí encontra formas de explicar como é que o Homem-Morcego "voa", como ele resiste a tiros com sua roupa e seus outros truques, tornando-o verossímil aos olhos de quem assiste. Muito interessante. E surge na tela o Batman. Ele se torna uma figura aceitável devido a toda essa pré-construção. O tabuleiro está posto, as peças estão posicionadas e a partida começa.
A Gotham em si é uma metrópole que possui até mesmo uma espécie de favela, na verdade o subúrbio de Narrows. Possui um sistema de metrô que alimenta a cidade e é muito bela à noite, deixando de lado o visual dark de Tim Burton. Nesse cenário, age o Batman, que provoca medo nos criminosos, com a assustadora forma de morcego e incrível habilidade de manter-se "invisível", uma característica ninja. Ainda tem a seu dispor o Batmóvel, espécie de tanque-de-guerra sobre rodas, com grande potência de velocidade.
Mas mais uma vez Goyer acerta ao revelar que o herói não é feito de ferro. Em certa ocasião, é até salvo pelo mordomo Alfred e em outra, chega a dormir dois dias seguidos devido a uma ação do herói. A platéia nota que se trata de uma pessoa normal e Nolan teve o cuidado de fazer com que as aparições de Batman não fossem a esmo ou por pura diversão. Casou muito bem Wayne com o Batman. O Wayne de Bale tornou-se tão palpável, que Bale mostra o lado playboy fútil de Bruce Wayne, um lado que o próprio Wayne resolve investir para que não recaia a suspeita de que ele mesmo é o próprio Batman, manchando assim o nome de sua família, o que lhe é mais caro na vida, mas assim desfazendo-se da injustiça, o que acaba transformando numa espécie de redenção.
O filme adquiriu uma aura mais séria. Tem seu ponto fraco somente na mal-resolvida relação de Rachel Dawes e Bruce Wayne, mas que acaba por si mesma mostrando que o amor não é perfeito: galga caminhos tortuosos. O filme mostra o início de um relacionamento que foi complicado devido ao aparecimento de um homem-morcego tal, mas falta saber se o interesse amoroso de Bruce permanecerá no próximo filme da série, a fim de desenrolar essa história mais a fundo. Por que alguém tem dúvidas de que vai haver uma continuação? Depois que a Warner retomou a série agora, com todo o mérito e força que um Batman requer, alguém aí arrisca dizer que não vai haver outro? E ainda com todo esse sucesso? Só espero que nenhum diretorzinho qualquer pegue o filme e o estrague de novo. Que fique com Nolan, Goyer e Bale e se encerre com eles num melhor de três. Aí sim, estará de bom tamanho.
"Batman Begins" - "Batman Begins" - EUA, 2005 - Dir.: Christopher Nolan. Elenco: Christian Bale, Katie Holmes, Michael Caine, Liam Neeson, Gary Oldman, Rutger Hauer, Cillian Murphy, Morgan Freeman, Ken Watanabe e outros. Roteiro: David Goyer. No Brasil: Estreou em 17 de junho de 2005.
*Valmir Junior
"Paulista, 23 anos, virginiano e doido por chocolate. Esse é Valmir Junior, um ator amador (ou amador ator?), fã de teatro (claro), filmes, exposições e outros assuntos relacionados à Arte (além de ser um bom garfo também). É a primeira vez que resenha para um site e dá medo nele, mas o desafio já foi aceito, então: "Merda!!!" (Não levem a mal! É "Boa Sorte" no Teatro)."
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