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CINEMA
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CRUZADA
Valmir Junior*
O filme anterior de guerra de Ridley Scott foi "Gladiador", com Russell Crowe, Joaquin Phoenix e Connie Nielsen, além do ótimo Richard Harris (que já foi dessa pra uma melhor e é mais conhecido como o mago Dumbledore dos dois primeiros filmes da série "Harry Potter"). "Gladiador" ganhou 5 Oscars, mas mais por obra do destino (e de lobby) do que por mérito.
Não que o filme fosse ruim, mas o épico estava mais para história açucarada, ou então mais para melodrama do que para drama propriamente dito, ou seja, o filme não conseguia atingir nenhuma definição, pois suas escolhas não eram mantidas ao longo da narrativa. Neste "Cruzada", Ridley Scott acerta a mão em muito mais pontos do que em "Gladiador" e transforma o filme naquilo que se propõe: um filme épico.
Um porém que já estabeleço de antemão: a escolha de Orlando Bloom foi simplesmente um chamariz para o filme, pois o ator é de uma apatia sem limites e sua capacidade para interpretar se reduz a duas expressões faciais (espremer os olhos e fazer um meio-sorriso) e outras tantas habilidades corporais utilizadas nas cenas de luta (eu disse "habilidades" e não "expressões corporais", que fique claro). Ou seja, um homem recém-enviuvado vai para a guerra, conhece uma nova mulher, se instala em nova situação como barão e líder e merece quase nenhum peso psicológico? Pois bem, se a resposta é não, alguém me explica porque Orlando Bloom reprisa a personagem Páris, de "Tróia" e o elfo Legolas, de "O Senhor dos Anéis"? Muitas perguntas e poucas respostas. Então eu fico com o chamariz mesmo... Enfim, depois do desabafo a respeito de Legolas, digo, Bloom, vamos ao filme.
Para esboçar o filme, primeiramente, é importante falarmos das Cruzadas, mesmo que sucintamente. À época, em meados do século XI, o papa Urbano II conclamou os cristãos do ocidente a rumarem em direção à Terra Santa a fim de conquistá-la. Segundo o Papa, era a "vontade de Deus". Eis que cristãos ricos e pobres rumaram à Terra Santa e, depois de muitos conflitos, conquistaram a cidade de Jerusalém. Essa foi a Primeira Cruzada. A Segunda Cruzada se iniciou com a revolta dos muçulmanos e a conquista de Jerusalém. Ao todo, foram nove Cruzadas. Depois da Segunda Cruzada, os cristãos não conseguiram mais tomar as terras para si e, até hoje, o conflito não foi resolvido. Resultado: a disputa pela Terra Santa prossegue.
O filme se encaixa aí, durante a Segunda Cruzada. Claro, como todo filme baseado em fatos históricos, existem alterações históricas para que o filme se desenrole - o que não acredito que seja realmente preciso - mas, em todo o caso, as mudanças contribuem para o roteiro do filme em si (se formos apenas nos ater à temática, que são as Cruzadas). A trama começa na França de 1186, com a convocação do ferreiro Balian (Orlando Bloom) por parte de seu pai, o Barão de Ibelin (Liam Neeson), para ir à Terra Santa. Alguns conflitos acontecem e Balian se torna o novo Barão de Ibelin e chega a Jerusalém. O contexto histórico está ali, a começar pela relativa harmonia da cidade de Jerusalém pelo domínio do rei Balduíno IV (Edward Norton). De cara, Balian se envolve com a irmã do rei, Sybilla (Eva Green) e ganha a ira de Guy de Lusignan (Maron Czokas), marido de Sybilla e contra a harmonia entre muçulmanos e cristãos.
Existem problemas históricos aí: o rei Balduíno IV, nessa época, já havia morrido há um ano. A princesa Sybilla era muito próxima de seu marido Guy de Lusignan, então rei de Jerusalém e já tinha um filho. Outros fatos não aconteceram exatamente nos momentos retratados pelo filme, mas, como dito anteriormente, é possível perdoar as alterações em nome do fluxo narrativo e da estrutura dramatúrgica do roteiro.
Depois das alterações históricas e de Orlando Bloom como protagonista (além das enfadada expressão de Czokas e a caricata interpretação de Brendan Gleeson como o comparsa de Guy de Lusignan, chamado Renaúld de Chantillón), o leitor deve estar se perguntando o porquê deste filme merecer mais créditos do que "Gladiador". Respondo: o tratamento que Ridley Scott deu ao assunto e as interpretações de Edward Norton e o ator sírio Ghassan Massoud, este último como Saladino, líder muçulmano.
Ridley Scott retrata muçulmanos como "homens normais" tal e qual são na verdade e não aquele clichê hollywoodiano de muçulmano mal, terrorista e inimigo de todos. Tanto na Jerusalém pré-conflito como durante o conflito, os muçulmanos têm aspirações, sabem ser bons, honestos, condescendentes e misericordiosos ao mesmo tempo que podem ser maldosos, irados, desvirtuosos, assim como o são os cristãos. Na verdade, assim como é todo mundo.
Scott ainda teve o cuidado de colocar o dedo na ferida sem derramar muito sangue, através das palavras dos soldados, que proferem que ir para a guerra é "a vontade de Deus", enquanto claramente vemos a ação política se desenrolar a olhos nus, denotando o quanto humana era a "vontade de Deus". A personagem de Jeremy Irons chega a comentar sobre o arrependimento de ter entrado em guerra, dizendo que foi às Cruzadas por Deus e depois percebeu que não se passava mais do que um imbróglio: os cristãos queriam terras e riqueza, Deus nada tinha a ver com aquilo.
Saladino e Balduíno IV são as personagens mais carismáticas e devo dizer que Edward Norton conseguiu ser o mais expressivo, mesmo vestindo uma máscara durante o filme todo (o que se devia ao fato do rei Balduíno IV ser leproso). Já Ghassan fez de seu Saladino um homem digno e justo, como era conhecido na época, o que distancia a imagem de "terror" que nos é impingida até hoje aos indivíduos deste povo.
Por fim, o que seria de um épico sem batalhas e um herói que cresce e se torna um ídolo, sendo ele nobre e justo? Pois é o que o diretor e o roteiro de Monahan oferecem. Soctt traz cenas de luta estonteantes e tomadas maravilhosas, pois sabe dirigir um filme de guerra. O herói, mesmo inexpressivo, é engrandecido pelo ambiente e pelo contexto histórico em que a história se passa.
Todos esses aspectos fazem de "Cruzada" um épico bom. Nada comparável a outros de infinita grandeza, como "Spartacus", "Os Dez Mandamentos" e "Ben Hur", mas um bem-vindo filme com dicotomias interessantes.
Portanto, se você for ao cinema encontrar uma história melosa, com final feliz, lutas de tirar o fôlego e mero entretenimento, bem, você pode encontrar alguns desses em "Cruzada", mas ainda há interessantes idéias a se aproveitar. Eva Green é colírio, seu envolvimento romântico com Bloom é bonito, a história de redenção é legal, mas retratar muçulmanos e cristãos como gente normal, isso "todo mundo merece". Importante: esqueça Orlando Bloom.
"Cruzada" - "Kingdom of Heaven" - EUA, 2005 - :Dir.: Ridley Scott. Elenco: Orlando Bloom, Liam Neeson, Eva Green, Jeremy Irons, David Thewlis, Brendan Glesson, Maron Czokas, Ghassan Massoud, Edward Norton. Roteiro: William Monahan. No Brasil: Estreou em 6 de maio de 2005.
*Valmir Junior
"Paulista, 23 anos, virginiano e doido por chocolate. Esse é Valmir Junior, um ator amador (ou amador ator?), fã de teatro (claro), filmes, exposições e outros assuntos relacionados à Arte (além de ser um bom garfo também). É a primeira vez que resenha para um site e dá medo nele, mas o desafio já foi aceito, então: "Merda!!!" (Não levem a mal! É "Boa Sorte" no Teatro)."
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