|
|
CINEMA
|
CINEMA É possível acabar com o genocídio cultural
Por Nicolau Soares
A força do dinheiro faz com que o cinema americano sufoque as produções
de outros países, destruindo parte da cultura, do imaginário e das
ações dos povos
Uma rápida contagem na programação de filmes das principais redes de
TV aberta do Brasil traz dados reveladores. Dos 31 filmes exibidos
durante três dias no começo do mês de fevereiro, 26 foram produzidos
nos Estados Unidos, 84% do total. Apenas um era brasileiro.
A conta não muda muito em outras datas. Alguns podem tentar explicar o
fato com o grande número de produções norte-americanas, outros, com a
qualidade delas. Os dois argumentos, no entanto, são pobres. Nos EUA se
produzem aproximadamente 550 filmes ao ano. É muito. Mas a produção
conjunta de China, Japão e Paquistão atinge o mesmo número. E isso não
garante espaço para as películas desses países nas TVs locais.
Quanto à qualidade, os filmes que ocupam a maior parte dos horários nas
TVs comerciais são produções baratas, de enredo duvidoso e sem as
grandes estrelas ou os diretores badalados de Hollywood.
“A indústria dos EUA sufoca todas as outras com a força do capital e
ainda conta com apoio do Departamento de Estado”, acusou o cineasta
italiano Citto Maselli na conferência Cinema e Política: Contra a
Homogeneização do Imaginário. “Isso leva a uma desertificação do cinema
que traga outras culturas, sufoca novas formas de construção
simbólica”, completa.
De fato, os EUA concentram 90% do mercado mundial de cinema. Estudo da
Unesco de 2001 mostra que, entre trinta países com produção
cinematográfica significativa, apenas em três os americanos tinham
participação no mercado inferior à nacional. No Brasil, apenas 3% do
mercado são destinados a nosso cinema, mesmo com a badalada nova safra
de filmes. Os EUA abocanham 95% do mercado.
“E daí?”, pensa o desafeto da sétima arte, “Por que eu deveria me
preocupar com a origem do filme que passa na Sessão da Tarde?”. Pode
parecer, mas a questão não é tão simples. Os prejuízos da má
distribuição do espaço audiovisual não ficam restritos a um pequeno
grupo de realizadores nacionais. “Hoje os modelos, valores, ritmos e
estilos estéticos do cinema americano são aceitos e favorecem a
dominação em outros campos”, explica Maselli. “Isso leva à passividade
dos cérebros e das consciências”, conclui. É através do cinema e de
outros produtos culturais que os Estados Unidos projetam a sombra de
seu império. Junto com eles vem toda uma visão de mundo, o american way
of life é vendido como panacéia para a felicidade.
Além disso, seus filmes nos disciplinam a encarar como normal o papel
dos EUA como a “polícia do mundo”. Sempre há uma lógica simples, com
bandidos e mocinhos, sendo que os norte-americanos sempre encarnam os
últimos. Sempre salvam o mundo todo de horrores absurdos, de gênios
loucos do mal a extraterrestres, de comunistas a terroristas árabes e
ditadores toda a espécie. Assim, quando resolvem invadir o Iraque sem
justificativa e sem apoio da ONU isso passa a ser considerado “normal”.
E o problema não fica apenas nesse nível simbólico. “O que está em jogo
é o direito humano de produzir suas próprias imagens e comunicá-las aos
outros”, denuncia o cineasta argentino Fernando Solanas. As imagens a
que Solanas se refere não se restringem às exibidas nas telas. Nosso
gestual, a maneira de conversar, contar histórias e hábitos do
dia-a-dia são constantemente influenciados pelos filmes a que
assistimos.
Não haveria nenhum problema se fosse uma troca de influências, mas esse
não é o caso. O poder de emissão de imagens está extremamente
concentrado no norte, o que gera um verdadeiro genocídio cultural. “É
preciso que os EUA entendam que nenhuma cultura é mais importante que
as outras”, defende o argentino. “Não se pode justificar
democraticamente a ocupação 90% dos espaços de comunicação no mundo”,
afirma.
Esse processo de aculturamento sempre ocorreu, desde os antigos
jesuítas. Entretanto, com a chegada da globalização aos patamares que
hoje conhecemos, foi aprofundado. “A globalização está levando a uma
homogeneização das imagens, um autoritarismo destrutivo do mais genuíno
e mais belo que os seres humanos e os povos têm, a preservação de seu
gestual, sua visão de mundo, suas imagens”, afirma Solanas. “O que
ocorre não é um real intercâmbio de imagens. Homogeneizar é fazer um
iogurte estúpido destruindo as diversas culturas”, ataca.
Como mudar
Citto Maselli e Fernando Solanas acreditam que é necessário criar
formas de impor a participação nacional no cenário audiovisual. “Nenhum
país pode viver sem o espelho de suas imagens. A arte é uma construção
de identidade”, aponta Solanas. “O cinema tem valor político, tanto
para demonstrar a diversidade do mundo como para afirmar um pensamento
único”, defende Citto Maselli. “Não é possível permitir que as regras
do capitalismo destruam nosso modo de ser, de enxergar, de falar.”
Vários países, inclusive o Brasil, têm formas de financiamento público
para a produção cinematográfica. Um começo, mas não a solução. O
principal nó ocorre na exibição dos filmes. Uma obra nacional entra em
cartaz em poucas salas e pouco tempo depois os exibidores são
pressionados a substituí- la por um filme norteamericano. A chantagem
das distribuidoras multinacionais é clara: para contar com o
blockbuster da temporada, o filme arrasa-quarteirão que garante altas
cifras, o exibidor é forçado a comprar vários outros filmes sem
importância comercial ou artística. Produções nacionais e de outros
países ficam sempre restritas a um “circuito alternativo”, com poucas
salas e presas aos grandes centros, como Rio e São Paulo.
Para enfrentar as distorções, Solanas propõe a criação de cotas de
exibição para filmes nacionais e latinos. “Isso ajudaria a resgatar a
dignidade desses povos expropriados”, explica. Outra idéia é criar
redes alternativas de distribuição, não ligadas a interesses comerciais.
Outro problema é a televisão. São poucas as produções nacionais que
conseguem espaço nas telas. As exceções ficam por conta das redes
públicas que, por não dependerem completamente de interesses
comerciais, se vêem mais livres para definir uma programação voltada a
aspectos culturais. O único filme nacional apresentado nos cinco dias
da nossa pesquisa citada no começo deste texto foi exibido na TV
Cultura. “O cinema nacional deve ser exibido nas TVs.É preciso discutir
e impor leis que regulamentem o espaço audiovisual. As emissoras têm de
lembrar que esse espaço é uma concessão e pertence ao povo, e não à
Globo, Televisa ou à família Cisneros”, sustenta Solanas.
Proposta mais ousada é a criação de um canal de televisão do Mercosul.
Teria financiamento público e se prestaria a realizar um intercâmbio de
imagens e produções entre os países. “Não seria caro e poderia ser
financiado pelo próprio comércio do bloco”, defende o argentino.
Fonte: www.revistaforum.com.br
|
|