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     FERNANDO FOGLIANO

A lógica dos processos colaborativos

Por Fernando Fogliano*

Quando fui convidado a escrever um pequeno artigo para a ONG Wooz fiquei muito satisfeito. Na verdade essa solicitação veio ao encontro de um desejo antigo que era compartilhar com as pessoas, minhas idéias sobre as questões relacionadas com processos nos quais os aspectos colaborativos são determinantes. Que encontro mais oportuno, nada mais adequado do que refletir sobre processos colaborativos tendo o site de uma ONG em perspectiva.

Em sua teoria da evolução, Darwin observa como a luta pela permanência depende em grande parte da capacidade do indivíduo em competir para satisfazer suas necessidades existenciais. Um exemplo de como o comportamento competitivo é determinante na preservação do nicho ecológico de uma espécie, pode ser apreciado nos instantes iniciais do filme 2001 Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick. Mas será que a nossa existência nesse planeta se explica apenas por nossa capacidade de competirmos? Somos fortes, rápidos, inteligentes o suficiente para garantirmos nossa permanência e de nossos sucessores baseados apenas em nossas capacidades competitivas? Antes de responder, vamos considerar as formigas. Isso mesmo, as formigas. Tão diminutas quase não pensamos nelas a não ser quando alguma nos dá uma picada irritante ou quando as consideramos uma praga que ameaça nossas lavouras. Normalmente pensamos nesses vizinhos de nicho com desprezo. Nada mais equivocado; saiba que esses insetos já andavam pelo nosso planeta muito tempo antes de nós mesmos termos tido a oportunidade de compartilharmos com eles a terra por onde andamos. Se considerarmos a permanência de uma espécie como seu objetivo primordial, veremos que temos de reverenciar esses pequenos insetos por seu bem sucedido trajeto evolutivo. Animais muito maiores e poderosos, como os dinossauros, já tiveram a honra de compartilhar esse mesmo espaço no passado e não obtiveram o mesmo sucesso, tendo sido extintos há muito tempo. Qual a razão para isso? Que temos em comum com as formigas e outras tantas e diversas formas de vida que se organizam socialmente? Então caro leitor, você gostaria de arriscar um palpite? Eu arrisco aqui o meu: comportamento cooperativo.

Ao olhar para a vida no nosso planeta em toda sua complexidade, não deve ser difícil concluir que cooperar traz vantagens evolutivas. É importante salientar aqui que essa vantagem independe da escala do sistema considerado, podendo ser o sistema social, o sistema de tráfego de uma grande cidade ou o sistema nervoso. Cooperação é um processo no qual os indivíduos (ou agentes) obtêm sucesso na utilização de recursos ambientais de uma forma que não poderiam fazê-lo isoladamente. Nesse processo, determinados agentes especializam-se no cumprimento de funções para as quais tenham maior aptidão, ou para as quais sua estrutura seja mais adaptada. Uma célula nervosa tem uma estrutura adequada para a transmissão de impulsos elétricos eficientemente; tal célula não desempenhará adequadamente outra função que não essa.

Não dá para escapar de uma sensação de contradição quando se considera cooperação e competição. Temos, portanto, um par antagônico, cooperação/competição ou egoísmo/altruísmo, coexistindo e regendo a evolução dos sistemas complexos. Richard Dawkins em seu livro O Gene Egoísta, analisa esse paradoxo contrariando o senso comum ao afirmar que os indivíduos que assistem seus pares às suas próprias expensas, por ele chamados gentis, não estão condenados à morte darwiniana.. Maturana e Varela em A Árvore do Conhecimento refletem sobre a relação entre egoísmo e altruísmo ao analisarem o comportamento do antílope, que fica para traz quando o bando ao qual pertence migra em busca de novas pastagens, ou sobre a formiga operária que não se reproduz, dedicando sua existência a conseguir alimento para as crias do formigueiro, beneficiando o grupo, e não a si diretamente. No processo evolutivo a relação entre os indivíduos e seu grupo atinge um estado de equilíbrio a partir do momento em que eles incluem entre os seus comportamentos, aqueles necessários para a manutenção da unidade social com a qual interagem e integram; estamos nos referindo aos comportamentos altruístas.

O paradoxo colocado pela relação cooperação/competição tem sido objeto de estudos numa área científica bastante nova no panorama das ciências e que se preocupa em analisar a Complexidade, as chamadas Ciências da Complexidade. O professor de Ciência Política Robert Axelrod escreveu um importante livro intitulado A Evolução da Cooperação no qual, logo no prefácio, ele faz a seguinte questão: quando deveria alguém cooperar e quando alguém deve seria ser egoísta num relacionamento com outra pessoa? Eu gostaria de que se considerasse não somente relacionamentos interpessoais, ou sociais. Gostaria de que se considerasse o paradoxo colocado pela cooperação no amplo contexto de nossas relações com o meio ambiente e outras espécies animais. O livro é interessantíssimo e merece ser lido, eu recomendo. Espero poder voltar a tratar dessas questões aqui futuramente. No entanto, gostaria de, finalizando nossa conversa, considerar que a análise de paradoxos nos coloca a necessidade de abandonarmos princípios lógicos tão arraigados em nossa maneira de raciocinarmos que nem se quer nos damos conta de que os estamos utilizando. Refiro-me aqui à Lei do Terceiro Excluído. Trata-se de um princípio lógico que exclui proposições meio certas ou mais ou menos certas (Dicionário Oxford de Filosofia). Assim, se uma proposição é verdadeira, logo ela não pode ser falsa e vice-versa. Sob o ponto de vista clássico essa afirmação é tão óbvia que até parece tolo perder-se tempo considerando-a. De fato, a lógica que herdamos da civilização grega é uma tremenda conquista da humanidade e continuará sendo importante na construção do conhecimento humano enquanto ele puder ser ampliado. No entanto, os recursos representados pelos princípios lógicos clássicos não são ilimitados conforme assinala Décio Krause em seu artigo Lógica Paraconsistente, publicado na revista Scientific American Brasil de novembro de 2004. Já na década de 1910, os lógicos Vasiliev e Lukasiewicz chamavam a atenção para o fato de que alguns princípios da lógica clássica poderiam ser revisados, inclusive o da contradição. Nesse artigo o autor descreve como a Lógica Paraconsistente surge como uma alternativa para lidar com situações em que a lógica clássica apresentaria limitações. Uma das características dessa lógica é a de que ela consegue lidar com os paradoxos de forma inclusiva e não exclusiva. A lógica paraconsistente permite abolir-se o princípio do terceiro excluído permitindo que princípios antagônicos possam ser considerados no contexto de um dado problema.

Na concepção da lógica paraconsistente cooperar e competir seriam ações contraditórias embora não excludentes. Tais comportamentos seriam componentes de um intrincado processo muito sofisticado que aumenta as chances de permanência de sistemas complexos como os seres vivos e suas sociedades. Ao levantar a necessidade de se lançar mão de novas ferramentas como a lógica paraconsistente, quero chamar a atenção para a importância da sofisticação do ferramental necessário para pensarmos os problemas colocados pela contemporaneidade. Somente sofisticando o ferramental teórico é que se poderá lançar alguma luz sobre a complexa conduta humana na busca de sua sobrevivência e, ao mesmo tempo, entender a complexidade de nossa ação no mundo. Talvez essa necessária sofisticação seja a única alternativa para entender a ação do antílope de Maturana e Varela.

Ao mesmo tempo, todavia, toda essa conduta altruísta para com a unidade grupal se realiza no antílope individual como resultado de seu acoplamento estrutural no meio que envolve o grupo, e expressa a conservação de sua adaptação como indivíduo. Portanto não há contradição na conduta do antílope, uma vez que se realiza em sua individualidade como membro do grupo. É "altruisticamente" egoísta e "egoisticamente" altruísta, porque sua realização individual depende de sua presença no grupo que integra (A Árvore do Conhecimento, Maturana e Varela, 1995: pp.221).



*Fernando Fogliano é Engenheiro Civil, Físico, com Especialização em Engenharia de Computação, Fotógrafo, Doutor e Mestre em Comunicação e Semiótica pela Puc de São Paulo. Professor de Fotografia Digital no Curso de Fotografia na Faculdade de Comunicação e Artes do Senac. Na mesma instituição desenvolve pesquisas em Imagem e Mídia.