:: institucional           :: projetos           :: serviços           :: sala de imprensa          :: parcerias          :: loja          :: contato     

CANAIS WOOZ

artigos
agenda cultural
artes visuais
cultura
cinema
dança
entrevistas
fotografia
internet
literatura
música
teatro
terceiro setor


Alberto Cataldi
Eliana Caminada
Fernando Fogliano
Roseli Pereira
Valmir Junior



clique aqui e faça um cadastro para receber informações Wooz
     DANÇA

Dois artigos de um jovem jornalista


Eliana Caminada

Claro que lhe pedi autorização. O respeito pela sua individualidade marcou sempre a criação que procuramos lhe oferecer.

Sim, ele é filho de um casal de bailarinos e tudo indicava que seria bailarino também. Pais, muitas vezes, podem abrir caminhos, sem que se enxergue nisso qualquer resquício de nepotismo ou favorecimento. Trata-se muito mais de uma questão de convivência, de conhecimento do que se passa nos bastidores de um determinado universo.

Refiro-me a meu filho, o autor dois artigos.

Por que os envio?

Porque encontrei esses textos casualmente e me surpreendi. Porque, como ele é muito reservado com seus pontos de vista, dado muito característico de sua personalidade, nem sempre conseguimos saber o que lhe vai na cabeça e no coração. Porque valorizo demais as relações entre pais e filhos, independentemente de profissões, embora, sem dúvida, algumas pesem mais sobre os ombros dos jovens do que outras.

Envio, também, porque o primeiro artigo fala explicitamente de preconceito a partir do ponto de vista de quem poderia ter sido afetado por ele, enquanto que o segundo é revelador do papel que nós, pais, podemos desempenhar junto a nossos filhos, ainda que não percebamos até que ponto estamos sendo observados e o quão modelar pode ser nosso comportamento em relação a eles.

Penso, indiscutivelmente, que a experiência de vida ao lado de um bailarino clássico foi uma bênção que só pode se concretizar porque tive, em meus próprios pais, seres absolutamente desprovidos de conceitos pré-estabelecidos; e porque tiveram, ambos, sensibilidade e cultura artística para poder, mais do compreender, estimular a união de uma filha classe média criada na zona sul do Rio de Janeiro, com um homem com uma profissão, à época, bastante marginal. Esta era a realidade nua e crua da sociedade carioca há 40 anos atrás.

E não ousaria colocar minha mão no fogo sobre alguma profunda mudança no seio dessa mesma sociedade.

Meu filho não atua como jornalista da mídia impressa. Seu raio de atuação é em outra área, o que me deixou à vontade para enviar esses textos. Continuo, assim, com minha cruzada de defender o ballet clássico, como bailarina, como mulher e como mãe. Mãe que, ao lado de seu companheiro bailarino, conseguiu angariar o amor de seu filho, sem jamais abrir mão de sua vida profissional, pessoal e afetiva.



1º Artigo

Preconceito inibe novos bailarinos

Discriminação prejudica a descoberta de talentos para o ballet

Por Roberto Cavalcante

No Brasil, assim como em todos os países da América Latina - com exceção de Cuba -, somente depois dos 17 anos de idade, em geral, um rapaz adquire personalidade para assumir a opção pela sapatilha e não pela chuteira. Essa dificuldade na hora de encarar o preconceito faz com que talentos em potencial percam anos valiosos que poderiam estar sendo usados no desenvolvimento e no aprimoramento da difícil técnica da dança.

Verdadeiros ícones, nomes como Mikhail Barishnikov e Irek Moukhamedov contribuíram para fazer o mundo reconhecer a Rússia como capital mundial da dança clássica. E para formar tantos bailarinos talentosos, uma receita simples: meninos ingressam em escolas de dança ainda aos 9 anos de idade. Além disso, diferentemente do que acontece no futebol, em que a criança já nasce chutando bola, o ballet depende de muita dedicação e treinamento exaustivo desde cedo.

Uruguaio, naturalizado brasileiro, Marcelo Misailidis veio para o Brasil com apenas 5 anos de idade e encontrou a barreira do preconceito. Considerado pela crítica um grande talento dramático, ingressou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro onde, como primeiro-bailarino, interpretou os papéis principais de obras da envergadura de "Giselle", "Coppélia", "Romeu e Julieta", "Onegin" e muitos outros, tornando-se um dos grandes nomes do ballet no país.

Além de já ter sido agraciado com três Estandartes de Ouro como coreógrafo e diretor de comissões de frente; a última, de 2005, foi do Salgueiro. Apesar de, por influência dos pais, sempre ter ouvido música clássica dentro de casa, seu sonho era o de dez em cada dez meninos brasileiros: ser jogador de futebol e se tornar um Ronaldinho. Até que, aos 15 anos, assistiu a um espetáculo de dança no Municipal e se apaixonou:

- A sofisticação do ballet me enfeitiçou. Fiquei extasiado com toda aquela atmosfera.

Sem coragem, demorou dois anos para tomar a decisão, com medo de ser discriminado. Durante esse tempo, começou a namorar uma bailarina que o acabou encorajando a enfrentar o desafio.

- Foi difícil, mas hoje não me arrependo nem um pouco. O ballet é minha vida. Vivo dele, fui casado com uma bailarina do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que me deu duas filhas maravilhosas - conta o bailarino.

Se nos dias de hoje o preconceito é grande, há meio século passado era muito pior. Em 1950, com 20 anos de idade, meu pai desembarcou no Rio de Janeiro, proveniente de Maceió, pensando em estudar Belas-Artes. Mas, depois de assistir à temporada de ballet do Municipal, percebeu que sua paixão, na verdade, estava no ballet clássico. Correndo contra o tempo, em poucos anos era bailarino daquela casa. Em 1971 foi convidado para o cargo de maître-de-ballet da companhia, um dos cargos mais importantes dentro do ballet clássico.

Com um currículo onde se destacam os postos de diretor do Balé Guaíra, maître-de-ballet do Municipal de Niterói e diretor artístico, coreógrafo e ensaiador da Cia. De Dança Rio, entre inúmeros outros, meu pai afirma que não enfrentou problemas com meu avô - só conheci minha avó materna -, segundo ele, um homem humilde, mas de muita sensibilidade.

- Quando completei 5 anos, papai me colocou numa escola de música para estudar piano.

Em compensação, o preconceito que existe contra a dança clássica, o fez abandonar a carreira de bailarino em 1969.

- Depois que você nasceu, resolvi deixar o posto de bailarino; tive medo de vê-lo sofrer no convívio com os amigos. Passei, então, apenas a dar aulas. Quando perguntavam minha profissão, dizia que era professor, mas não falava de quê - revela.

Minha mãe, bailarina do mesmo Theatro, hoje aposentada, diz que o preconceito nunca a atingiu. Segundo ela, meus avós, além de terem recebido com muito encantamento sua inclinação pela dança clássica, apoiaram totalmente o casamento com um bailarino:

- Artistas são homens sensíveis. Papai e mamãe sempre acreditaram nisso. Com uma família que fazia a apologia da arte, não poderia ser diferente. Junto a seu pai vivi as maiores emoções de minha vida. Choramos e vibramos juntos; juntos geramos você. Isso justifica nossa vida em comum - conclui minha mãe, que escreveu um livro sobre história da dança e hoje colabora com vários sites na Internet, sempre abordando essa arte que também eu, engenheiro formado, jornalista de profissão (igualmente formado), aprendi a apreciar.

Poderia ser diferente?



1º Artigo

Só falta plantar uma árvore

Por Roberto Cavalcante

Ela está com quase 60 anos de idade. Uma preocupação nunca presente foi a de escolher sua profissão. Aos 5 anos já estava em uma academia de ballet dando seus primeiros passos naquilo que a acompanharia por toda a vida. Era seu verdadeiro sonho, adquirido muito precocemente. São, portanto, mais de 50 anos de um casamento que ao que parece não terá fim.

Gostava muito de ler e de estudar, era uma das melhores alunas do Colégio Mallet Soares e com seu potencial, todos apostavam, poderia, um dia, vir a ser uma doutora. Mas não era isso o que ela queria. Queria, sim, vier emoções, trabalhar com dança, música, poder um dia dançar ao som de uma orquestra sinfônica. "Se pudesse voltar minha vida, faria tudo outra vez. Eu amo a dança!". E foi atrás de seu sonho. Continuou fazendo ballet até que um dia resolveu encarar uma audição - como é chamado o exame - para o Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O resultado foi positivo: primeiro lugar. Ela chegava onde toda bailarina sonhava e sonha: dançar no palco enorme, lindo e imponente do Theatro Municipal. E logo, logo, começou a dançar primeiros papéis.

Aos 19 anos casou-se com um bailarino, coreógrafo e maître-de-ballet, também do Municipal. Dez meses depois nascia seu primeiro e único filho, até porque, não quis ter mais filhos para não ter que interromper sua dança outra vez.

Depois de uma vida inteira, junto ao marido, totalmente dedicada à dança, aos 45 anos, decide encerrar sua carreira. Com uma festa de despedida linda, que contou com a presença, dançando, de nomes como Ana Botafogo, Áurea Hammerli, Cecília Kerche, Roberta Marquez, parecia chegar ao fim uma história. Seria o fim do sonho? Não, isso foi apenas o final do primeiro tempo.

Ela foi dar aulas de História da Dança numa faculdade; podia, assim, passar toda sua experiência adquirida nos maiores palcos do país e de uma passagem pelo Ballet da Ópera Estatal de Munique, na Alemanha. Com essa nova etapa começou um novo desejo: o de aprender mais. Começou a pesquisar a fundo tudo sobre a história do ballet no Brasil e no mundo. Os grandes bailarinos, os grandes ballets, a origem de tudo. E, não só sobre sua grande paixão, o ballet clássico, mas todo tipo de expressão corporal existente.

O resultado de tudo isso acabou sendo um livro sobre história da dança, que foi lançado no Teatro da Cidade em 1999. Ao que tudo indicava, pelo jeito, pelo amor à dança, era a primeira grande jogada do segundo tempo. Ela estava só recomeçando.

Dizem que para a vida ter realmente valido a pena tem que passar por três experiências: ter um filho, e isso ela já tem; escrever um livro, coisa que ela nunca imaginou poder realizar e o fez, até mais de um; e plantar uma árvore. Pelo jeito, só lhe falta esta, apesar de que isso depende do ponto de vista: sua vida já é uma grande árvore plantada.

Senhores, refiro-me a minha mãe.





Eliana Caminada é orientadora e consultora, escreveu vários livros sobre dança, e responde pelas disciplinas História da Dança e Técnica de Ballet Clássico no Centro Universitário da Cidade. Professora convidada no projeto "Sons Dançados do Brasil" do Centro de Artes Calouste Gulbenkian, colabora com o jornal "Dança, Arte & Ação" e participa, como palestrante, jurada ou pedagoga, de festivais e mostras de dança por todo o Brasil. Foi bailarina do "Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro", primeira-bailarina do "Balé Guairá" e solista do "Ballet da Ópera Estatal de Munique".




Visite o site: www.elianacaminada.com