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DANÇA
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Um menino de 90 anos
Eliana Caminada
Nilson Penna completou 90 anos.
Uma data tão significativa para qualquer ser humano seria comemorada, como foi, com a presença de incontáveis amigos, de todas as áreas de cultura: atores, bailarinos, empresários, coreógrafos, figurinistas, historiadores, cenógrafos, etc., no Salão Dourado do Hotel Glória, em tal número que achei mais prudente não mencionar nomes específicos; poderia cometer uma injustiça ou um ato de omissão involuntário.
Só não havia a presença da grande imprensa. Apenas o Jornal da Dança estava presente à festa registrando aquele momento.
Cada vez que vejo um grande brasileiro ser ignorado pela mídia do país e pelas autoridades de plantão sinto pena delas - da mídia e das autoridades -, pelo absoluto despreparo revelado, um despreparo tão grande que prefere noticiar embaixadinhas da simpática Milene, ex-Fenômeno, a um prêmio, por exemplo, conquistado de forma inédita por um artista brasileiro. Ou aos 90 anos de um artista com a história de Nilson Penna.
Sinto-me envergonhada, devo confessar, dessa situação que não muda, que não melhora, dessa classe jornalística interessada apenas na pseudo-arte, no pseudo-atleta, na notícia fácil, na bola da vez. Triste, muito triste a ignorância consentida, estimulada, assumida. Já não basta termos um Presidente que apregoa, orgulhoso, que jamais leu um livro?
Voltemos a nosso homenageado que, ao contrário disso, é um homem eclético, vivido e culto.
Nilson Penna, artista polivalente, foi ator, crítico, bailarino, cenógrafo e figurinista, figura viva da atividade cultural no Brasil, verbete de enciclopédias de importância universal.
Estudou na Escola de Artes de Paris e complementou sua formação nos EUA. Realizou trabalhos cenográficos de grande beleza e inúmeros figurinos para companhias e artistas nacionais e internacionais.
Participou da verdadeira epopéia em que se constituiu a tournée do Ballet do Rio de Janeiro à Europa, em 1961, quando Dalal Achcar ousou levar duas dezenas de jovens bailarinos dançando um repertório composto apenas de coreógrafos, libretistas, figurinistas e compositores brasileiros natos ou naturalizados. Nilson foi o figurinista de "O Garatuja", ballet coreografado por Dennis Gray sobre música de Alberto Nepomuceno.
Há algum tempo dedicado a escrever um livro enciclopédico sobre a dança, nele narra e menciona seus encontros com famosas personalidades que conheceu e com as quais conviveu, dos mais antigos aos mais jovens artistas de nosso tempo.
Encantado pela vida, esse menino de 90 anos tornou-se íntimo de Bidu Sayão e o maior pesquisador da vida e obra dessa grande cantora lírica brasileira que conquistou o Metropolitan Opera House a partir da década de 30. Nilson conheceu Bidu em 1936, em Belém, pouco depois do seu extraordinário êxito nos Estados Unidos.
Ainda outro dia, num desses excepcionais documentários da TV Senado que homenageava Bidu, foi feliz e comovida que me deparei com Nilson prestando valioso depoimento sobre a vida dessa artista, muito mais reverenciada fora de sua terra do que nela, como só acontece por aqui.
Parece haver um complô contra o artista chamado erudito, como se erudição fosse defeito, grave falha de caráter, doença contagiosa, algo que se deva temer, manter distante, quem sabe?
Nilson, querido amigo, nada disso o abala. Nada tira sua alegria, sua felicidade de viver; nem a grosseria de um motorista de ônibus que saiu antes de você saltar em segurança, fazendo-o fraturar a bacia, já lá se vão muitos anos. Sua vitalidade, sua disposição para bater-papo, para assistir a espetáculos de ballet e de ópera estão intactos.
Espero, esperamos todos, estar presentes ao aniversário de seu centenário; nenhum de nós ali presentes tem dúvidas de que isso acontecerá.
Caminhando sem nenhum problema, dançando valsa, soprando as velas do enorme bolo, confraternizando com os presentes, você estava mais jovem do que sempre. E nos fez sentir jovens também.
Nilson Penna, obrigada. Feliz Aniversário e até daqui a dez anos.
Eliana Caminada é orientadora e consultora, escreveu vários livros sobre dança, e responde pelas disciplinas História da Dança e Técnica de Ballet Clássico no Centro Universitário da Cidade. Professora convidada no projeto "Sons Dançados do Brasil" do Centro de Artes Calouste Gulbenkian, colabora com o jornal "Dança, Arte & Ação" e participa, como palestrante, jurada ou pedagoga, de festivais e mostras de dança por todo o Brasil. Foi bailarina do "Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro", primeira-bailarina do "Balé Guairá" e solista do "Ballet da Ópera Estatal de Munique".
Visite o site: www.elianacaminada.com
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