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DANÇA
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Escola Estadual de Danças Maria Olenewa/Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro: a caminho dos oitenta anos de sua criação
Eliana Caminada
Amigos, a noite do dia 01 de junho pp. marcou o início do ciclo de espetáculos comemorativos da criação do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, oficialmente reconhecido em 1936, mas cuja data de criação não pode ser desvinculada da data da fundação da primeira escola oficial do Brasil e que teve o nome do teatro que a abrigou: Escola de Danças Clássicas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, hoje Escola Estadual de Danças Maria Olenewa. O nome mudou, mas a força de sua marca permaneceu.
A oficialização da companhia, que já fora concedida, em 1931, às escolas oficiais - de Dança e de Canto Lírico - e à orquestra, corpo que nos precedeu nesse processo, até considerando a tradição musical do carioca, veio coroar os esforços da extraordinária figura histórica que é Maria Olenewa, não apenas fundadora da Escola de Dança e da própria Companhia, mas a artista que concebeu o papel de uma e de outra Instituição, ligando-as umbilicalmente. O reconhecimento oficial, que nada mais fez do que dar um cunho burocrático-administrativo a uma atividade artística que já existia de fato, premiou também a perseverança e o talento de nossos bailarinos e mestres pioneiros. "Juntos, eles construíram um dos patrimônios mais representativos da cultura nacional, legado preservado com brilho e declarado amor pelas gerações que os sucederam", segundo minhas próprias palavras, ditas de forma emocionada na noite de estréia pela companheira Irene Orazem.
Mas é preciso que se tire da sombra em que foi deixada a nossa história, os fatos registrados pela imprensa, programas e fotos acontecidos entre o ano da criação em 1927 e o da oficialização em 1936. Até porque, a Escola cumpriu parte de sua finalidade, a de se apresentar como Corpo de Baile nas temporadas líricas, desde o primeiro ano de sua existência.
Nos anos de 1928 e de 1930, na condição de bailarinos de uma companhia, nossos pioneiros se apresentaram, respectivamente, com a companhia de Anna Pavlova e com a Cia. Franco Russa de Bailados de Vera Nemtchinova e Anatole Vilzak; em 1933, Yuco Lindberg, esse estoniano apaixonado pelo Brasil, recebia o título de primeiro-bailarino; em 1934 Serge Lifar, maior nome do ballet da época, diretor do Ballet da Ópera de Paris, foi contratado para uma temporada para a qual montou Criaturas de Prometeu, ballet em 2 atos, criado na mesma época para a Ópera de Paris (além de ballets de óperas e atuações em trabalhos de Olenewa), ocasião em que convidou a polonesa Maryla Gremo, já radicada entre nós, para integrar a companhia e para quem foi criado o título de primeira-bailarina; em 1935, além de ninguém mais se referir aos espetáculos de ballet como espetáculos da Escola de Danças, mas do Corpo de Baile, recebemos a visita de Bronislava Nijinska, irmã do célebre Vaslav Nijinski, que sugeriu a montagem de Petroushka, de Mikahil Fokine, fato que se concretizou em 1936, quando apresentamos nossa primeira primeira-bailarina brasileira: Madeleine Rosay.
A título de curiosidade(1) , vale lembrar que, em 1913, em plena tournée dos "Ballets Russes de Diaghilev" ao Rio, Nijinski ficara noivo de Romola de Pulski comprando suas alianças na rua do Ouvidor, casara-se em Buenos Aires, e retornara ao Rio para passar sua lua-de-mel no Hotel Belvedere, no Silvestre, em Santa Teresa, a convite de Paul Claudel, embaixador da França no Brasil. Também Isadora Duncan, ao chegar para sua temporada no Rio, concedera entrevista bem explícita à Gazeta de Notícias: ".(..) Eu me lembro de Dante nesta viagem - Buenos Aires, o Inferno, Montevidéu, o Purgatório e aqui o Paraíso que eu começo a ver (...)"
O Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio, única companhia de repertório do Brasil, é dono de um acervo que o coloca no circuito das maiores companhias do mundo, dele constando obras que remontam ao século XVIII - Les Indes Galantes - e chegam às mais recentes criações contemporâneas, prova maior do ecletismo e da excelência de seus artistas. Foi um acerto da nova direção, na figura de Marcelo Misailidis, mais do que homenagear uma bailarina tão amada pelo público quanto Ana Botafogo em seus 25 anos de companhia e lembrar do inesquecível Dennis Gray, trazer para o bojo dessas comemorações, que apenas estão começando, os bailarinos vivos que fizeram a história do nosso principal teatro, de todas as gerações, dos mais antigos aos mais jovens.
É verdade que a importância dessa homenagem ficou minimizada pela falta de um aviso ao público de que tal fato ocorreria e pelo atropelo, dado o adiantado da hora, em que a cerimônia se realizou, mas isso não invalida a clara noção de que está imbuída a direção - a história faz a tradição e tradição em ballet não é substituível, assim como não tirou dos artistas, muitos pisando novamente o palco daquele Theatro depois de mais de 30 anos, uma evidente alegria.
Emocionados estávamos quase todos, inclusive o público, maior incentivador e mais acurado crítico de nossos espetáculos e temporadas, para quem, ao final de tudo, todo artista cênico se apresenta.
Coppélia, obra que, casualmente ou não, foi mostrada, é significativa para o Corpo de Baile sob muitos aspectos: é um dos primeiros ballets de repertório em dois atos encenado pela companhia, contou com as interpretações primorosas de várias gerações de bailarinos brasileiros, dentre os quais as "Swanildas" Tamara Cappeler, Tatiana Leskova, Beatriz Consuelo, Eleonora Oliosi, Sandra Dieken e Helena Lobato, os "Franz" Johnny Franklin, David Dupré, Emílio Martins, Armando Nesi e Renato Magalhães, e os "Coppélius" Dennis Gray e Geraldo Cavalcante, para só mencionar os antigos intérpretes.
Mencionar os atuaram nos papéis principais a partir de 1981 é tarefa difícil, porque já foram tantos, e tão bons, que sempre se corre o risco de cometer uma injustiça com quem não se viu ou a quem se deu uma primeira ou única chance.
Espera-se que, brevemente, tenhamos no palco do Theatro outro ballet que é marco de sua história, O Lago dos Cisnes, montado por Eugenia Feodorova em 1959, quase uma estréia mundial (somente a Inglaterra, no chamado mundo ocidental possuía este ballet na ´íntegra), responsável direta pela consagração de duas figuras notáveis: Bertha Rosanova, única bailarina brasileira a ostentar o título de primeira-bailarina absoluta, honra que ela deixa para a história, e Aldo Lotufo, a grande legenda da dança masculina do Brasil, bailarinos que estão para nós (ou deveriam estar), como Margot Fonteyn está para o Royal Ballet.
Fazemos votos para que essa e outras direções prossigam nessa tarefa, começada pela gestão Dalal Achcar com o projeto Memória dos Artistas do Theatro Municipal, de resgatar e reverenciar o papel glorioso desses fundadores, cuja estirpe começa com um nome: Maria Olenewa.
Parabéns ao Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Três épocas diferentes da companhia (clique na foto para ampliar)
Foto 1: 1936 - Les Sylphides, de Mikhail Fokine, remontagem de Maria Olenewa. Na foto os três primeiros bailarinos principais que a companhia conheceu: Maryla Gremo, Madeleine Rosay e Yuco Lindberg.
Foto 2: 1959 - Primeira montagem de O Lago dos Cisnes, de Petipa/Ivanov, remontagem de Eugenia Feodorova. Cena do Prólogo/1º ato. O Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio foi uma das primeiras companhias do ocidente a conhecer este ballet na íntegra. Somente a Inglaterra conhecia a obra completa, que, até então, era um privilégio da ex-Cortina de Ferro.
Foto 3: 2004 - Onegin, de John Cranko, remontagem de Richard Cragun. Na foto Cecília Kerche como Tatiana e Márcia Jaqueline como Olga.
1.Sucena, Eduardo, "A Dança Teatral no Brasil", ps. 130 e 138. Rio de Janeiro, FUNDACEN, Ministério da Cultura, Rio de Janeiro, 1988. Trata-se da mais importante pesquisa sobre o tem, realizada com idealismo e grande sacrifício pelo ex-bailarino Eduardo Sucena. O livro, infelizmente, não foi (re) editado até hoje.
Eliana Caminada é orientadora e consultora, escreveu vários livros sobre dança, e responde pelas disciplinas História da Dança e Técnica de Ballet Clássico no Centro Universitário da Cidade. Professora convidada no projeto "Sons Dançados do Brasil" do Centro de Artes Calouste Gulbenkian, colabora com o jornal "Dança, Arte & Ação" e participa, como palestrante, jurada ou pedagoga, de festivais e mostras de dança por todo o Brasil. Foi bailarina do "Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro", primeira-bailarina do "Balé Guairá" e solista do "Ballet da Ópera Estatal de Munique".
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