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DANÇA
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A Maria Lúcia Galvão e Vera Lopes
Eliana Caminada
Lúcia entrou na minha vida ainda adolescente, como aluna e depois como afilhada de casamento. Vera eu conheci mais tarde, e a bondade que emana de seu rosto penetrou meu coração para sempre.
Com ambas aprendi muito; e ainda não sei o que elas sabem de humanidade, de amor à criança brasileira, de desprendimento e de capacidade de se doar.
Este artigo é dedicado a elas.
De Marias, Verdades e Poetas - a Dança e a Lua
"Mamãe!
Me dá essa lua
Ser esquecido e ignorado
Como esses nomes de rua!"
S. Paulo, 17-II-45
Mário de Andrade em carta a Murilo Miranda
É inevitável! Quando falo de Maria Lúcia Galvão e Vera Lopes, fatalmente me lembro da figura paradigmática de Mário de Andrade.
Por tudo! Pela competência, pela integridade de suas personalidades, pela generosidade quase utópica de suas idéias, pelo profundo amor à Pátria brasileira; pelo encantamento e identificação com nosso povo, seus ritmos, danças, cores, sons, festas e formas de expressão.
Como ele, ambas são conscientes de que nasceram e de que vivem num país pleno de luminosidade e calor, de contrastes violentos, de necessidade vital de identificação com seus signos e símbolos.
Como ele - creio eu -, elas pedem uma lua. Porque, como artistas - elas e Mário -, sabem que a lua, bela e enigmática, com suas múltiplas formas, sempre inspirou muitas danças, muitos cantos; e que onde existe muita luz total, como no nosso País, se instala a carência emergencial da magia da sombra, dessa luz mais sutil, que ilude, que se incorpora, também ela, a sombra, como elemento essencial da grande encenação da vida: a Arte.
"... Sol! pelo amor de Deus
Não venha agora
Que a morena
Vai logo embora ."
Feitiço da Vila
Noel Rosa
Igualmente, como Mário, elas parecem desejar ser ignoradas em seu trabalho tenaz, solitário, anônimo. Buscam, como o poeta, talvez algo mais profundo e essencial, um bem maior, mais puro, ao qual parece incomodar os títulos, cargos, votos, fama; é silenciosamente que elas agem, que elas concorrem, efetivamente, para o desenvolvimento de jovens, crianças ou adolescentes, oriundas de todas as classes, nem sempre amparados pela sociedade distorcida que edificamos, ou pelos nossos poderes público e privado, todos – sociedade e poderes - distantes de suas carências, aspirações e, sobretudo, sensibilidade.
"Luar! Espere um pouco
Que é pra todo mundo saber
Que a noite é criança
Que o samba é menino
Que a dor é tão velha que pode morrer... "
Olé, olá
Chico Buarque de Holanda
Esquecidas! é, do verso de Mário, a única palavra que não lhes cabe; porque não há como passar por elas sem ficar com a alma tatuada pelos seus rostos humanos, expressivos, amorosos. Como não registrar, para sempre, essas brasileiras que jamais recuaram diante do desafio de exercer de forma ética e moral o duplo ofício - de pedagogas e de artistas cênicas - que as escolheu e que elas apaixonada e reverentemente abraçaram?
Lúcia e Vera - Maria e Verdade - são mulheres que sonham; sonhando assumem responsabilidades, favorecem, de forma quase missionária, a edificação de uma existência digna para os alunos-filhos que orientam onde quer que atuem: Uerj, ou Centro de Artes Calouste Gulbenkian. Comprometidas com a Arte, como Mário, elas sabem que se existe eternidade na vida é na Arte que ela se manifesta, se Deus está em nós é através dela que expressamos sua essência.
Poetas da dança, usam a Arte como instrumento de manifestação de sua formação pedagógica amparadas pelo amor que habita seus enormes corações.
Que mais se pode falar delas?
"A primeira dança foi a da primeira criatura que se viu alongada no chão, como querendo libertar-se.
Depois, tudo foi dança. Até o futebol. Até o Box.
As nuvens dançam no ar. As ondas dançam no mar. Dança é música que se vê.
Nijinski(1) dançou pintura. Isadora Duncan(2) dançou escultura. Regina Facar(3) y dançou poesia. Carlitos(4) dançou solidão."
Cada um carrega o seu deserto
Álvaro Moreyra
ELIANA CAMINADA é Orientadora e consultora, escreveu vários livros sobre dança, e responde pelas disciplinas História da Dança e Técnica de Ballet Clássico no Centro Universitário da Cidade. Professora convidada no projeto "Sons Dançados do Brasil" do Centro de Artes Calouste Gulbenkian, colabora com o jornal "Dança, Arte & Ação" e participa, como palestrante, jurada ou pedagoga, de festivais e mostras de dança por todo o Brasil. Foi bailarina do "Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro", primeira-bailarina do "Balé Guairá" e solista do "Ballet da Ópera Estatal de Munique".
1. Vaslav Nijinski (1889 -1950), figura masculina mais mítica da história da dança, foi um gênio que enlouqueceu
diante da impossibilidade de conviver com um mundo violento, aético e hipócrita. XX.
2. Dançarina norte-americana (1878-1927), se opôs às formas do ballet clássico propondo uma dança
livre inspirada na Grécia dionisíaca. Morreu tragicamente enforcada pela própria echarpe que se enrolou nas rodas do carro que dirigia.
3. Meu Deus, quem foi Regina Facary?
4. Charles Chaplin (1878-1977), inglês, foi o criador do personagem Carlitos, talvez o maior da história do cinema.
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