:: institucional           :: projetos           :: serviços           :: sala de imprensa          :: parcerias          :: loja          :: contato     

CANAIS WOOZ

artigos
agenda cultural
artes visuais
cultura
cinema
dança
entrevistas
fotografia
internet
literatura
música
teatro
terceiro setor



Fernando Fogliano
Roseli Pereira
Valmir Junior



clique aqui e faça um cadastro para receber informações Wooz
     DANÇA

O forró

Por Gilberto Gil :: :: 06/12/2004

Quando os portugueses chegaram às praias da costa atlântica deste novo continente encontraram, ali, gente pacífica que os recebeu com curiosidade e admiração. Dentre os vários elementos utilizados para o contato inicial estava a música.

Consta nos anais históricos que, nos primeiros encontros com os índios, os marinheiros portugueses tocaram, cantaram e dançaram e conseguiram fazer com que os gentios tambem o fizessem, estabelecendo, assim, uma forma inicial de entendimento e cumplicidade, através da música trazida pelas caravelas e com que se ensaiavam, ali, os primeiros exercícios do que viria a se tornar a música brasileira.

Consta também que, para além da receptividade e encantamento com as flautas e as gaitas, os índios, logo de início, mostraram-se inclinados a “entrar na dança” produzindo, naquelas praias dos primeiros dias da descoberta, os primeiros passos das danças que se tornariam uma das marcas mais eloqüentes do nosso modo brasileiro de se expressar através do corpo. Ainda não haviam chegado os africanos e já se tocava, cantava e dançava, sob o sol e a lua, na nova terra brasileira. Estudiosos desses tempos remotos chegam a historiar sobre o talento todo especial dos indígenas para a música dos brancos, e dos excelentes músicos que alguns dos jovens índios e índias logo se tornaram, à medida que, animados com os resultados daquelas primeiras manifestações espontâneas, os jesuitas incumbidos das tarefas de educar os nativos, se dedicavam, mais e mais, ao ensino de intrumentos como a flauta, a viola e o pandeiro. A inventiva e a capacidade de improviso logo se manifestaram como a primeira grande contribuição do “povo nu” à musica que então se criava.

Alguns desses estudiosos chegam a atribuir a esses primeiros tempos o surgimento da expressão samba (palavra de origem tupi significando roda de dança) que vem a se tornar, em especial no nordeste, a designação genérica para toda festa, todo folguedo, toda reunião lúdica regida pela música.

Com a chegada do povo negro, introduzem-se os batuques e as gingas próprias daquelas gentes africanas (inicialmente bantu e em seguida gêge-nagô) que vêm trazer a contribuição definitiva à criacao da vibrante música e do sensual requebrado, marcas da festa nacional da qual o modo mais emblemático ficaria conhecido como samba.

Ainda me recordo da surpresa de que fui tomado quando, ao percorrer extensa região nordestina de Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Ceará em 1972, ao voltar do exílio na Inglaterra, encontrei a expressao samba a designar, justamente, os arrasta-pés e os bailes locais. Ali, não o samba - tal como conhecido na Bahia e no Rio - mas o baião, o xote e o xaxado eram as principais manifestações musicais.

Mesmo constituído por outro tipo de música, o baile nordestino, principalmente mais para os lugares do interior, era até então comumente chamado de samba. Creio que a designação genérica de forró para a festa torna-se predominante, à medida que este termo, de origem urbana, passa a ocupar o imaginário nacional, seguramente apos a disseminação do baião e de toda a sua família musical, iniciada a partir de Luiz Gonzaga, o grande responsável pela divulgacão dos gêneros nordestinos em nível de massa, nos idos de 1950. O surgimento da Feira de S. Cristóvão no Rio de Janeiro e de seus equivalentes em S. Paulo, impulsionam, em meados do século XX, essa nacionalização da festa nordestina que passa a adotar o nome genérico de forró, ele mesmo ja consequência de um fenômeno cosmopolita então recente: o surgimento dos bailes urbanos, especialmente em Recife e Natal, na década de 1940, sob a influência da presença das bases-aéreas americanas, com seus soldados ávidos por diversão e festa. Muito corrente é, hoje em dia, a versao de que a palavra forró seria uma corruptela da expressao for all, denominação dada pelos militares americanos para os bailes abertos ao grande público (for all, para todos) e que se popularizaram em Recife e Natal, durante a Segunda Guerra.

Portugueses, índios, africanos, violas, flautas, sanfonas, pandeiros, batuques, requebrados, luar do sertão, sol da praia, festa do interior, baile da cidade, aridez severina da caatinga, umedecente sensualidade do mar, afeto ibérico, volúpia americana, doce da cana, ardência da pimenta, menino do Rio, mina de Sampa, maculelê do Recôncavo, cateretê de Minas, mulatas de Di Cavalcanti, operários de Portinari, bate-coxa, mela-cueca, esquenta-mulé, o forró vem se fazendo em longa trajetória ao longo da história desses povos brasileiros de tantas origens e tantos destinos. Através dos nordestinos e dos sulinos, dos baiões e das polcas, o forró vem se tornando um espaço de cultivo musical, criação coreográfica e ambiente de convívio para pequenas populações rurais e grandes aglomerados urbanos em que se produzem ricas trocas entre culturas e regiões, dentro do grande caldeirão étnico, político e religioso em que se vem constituindo este híbrido sociocultural chamado Brasil.


A música

Inicialmente marcada pelos elementos da cultura portuguesa da epoca das grandes navegações, em que a presença árabe já deixara marcas indeléveis, a nascente cultura brasileira recebe, aos poucos, os influxos de outras culturas africanas, européias e asiáticas com que vai tomando contato através, principalmente, da intensiva imigração com que o país passa a suprir suas necessidades de mão-de-obra e tecnologias agro-pecuárias, comerciais e pré-industriais essenciais para o seu desenvolvimento. Ao lado das técnicas de pastoreio, agricultura, metalurgia, artezania, comércio e ofícios variados com que os imigrantes enriquecem a vida produtiva brasileira, multiplicam-se também os influxos de novos e variados elementos simbólicos, através, principalmente, das formas artísticas trazidas pelos colonizadores e aqui processadas e transformadas pela nova sociedade que vai se formando.

A música logo se insinua como um campo particularmente propício ao desenvolvimento do talento e da criatividade brasileiros que viriam marcar definitivamente nossas características em tempos modernos. Particularmente alimentada pela intensa e exuberante contribuição africana, a nossa música processa e registra, aos poucos, os elementos mediterrâneos, orientais e por fim, germânicos e anglo-saxônicos com que consolida, em meados do século XX, uma face musical propriamente nossa. Ao lado do samba (ou dos sambas) o baião surge como grande gênero de fusão e difusão do hibridismo musical que nos caracteriza. Em 1946, Luiz Gonzaga grava e populariza o primeiro disco de baião. Nos anos de 1950-60, o gênero (baião, xaxado, xote, pé-de-serra) ja se inscreve como um gênero de aceitação nacional, passando, dai em diante, a dialogar com todo o universo musical brasileiro, do são-joão ao carnaval. De dança da moda dos salões cariocas nos anos 50 até a base do galope do carnaval baiano dos anos 90, a família nordestina do baião se movimenta, ao longo da segunda metade do século XX, como uma verdadeira familia real cuja longa dinastia viria a se estender pelos novos tempos da musica tecno no século XXI.

Hoje, a música do forró engloba, desde os modos clássicos de Marinês e do Trio Nordestino e seus descendentes retrô, ate as formas mutantes da oxente-music de Fortaleza, Campina Grande e Caruaru. Misturada aos elementos lítero-musicais do brega, do sertanejo e do pagode, a musica do forró vai levando adiante a saga antropofágica da nossa cultura popular, assumindo a hibridação como seu traço constituinte elementar.


A dança

Nascida na roda de samba indígena, a dança brasileira vem se fazendo, rural e urbana, ao longo da uma linha de contatos com a dança do mundo, principalmente com aquela que se faz globalmente visível através dos filmes musicais americanos que cruzam as telas do planeta no pós-guerra. Das danças de salão dos aristocratas, da fuzarca coreográfica do charleston e do booggie, do frenético rock’n roll, da ebulição do frevo, do gingado do samba, de tudo isso de que os meios de comunicação modernos vão trazendo, aos nossos olhos e ouvidos, a variada composição; pelo rádio, cinema e televisão, vai-se plasmando a dança brasileira moderna, através de lambadas e browns, de breaks e grafittis, danças de rua e de salão, imprimindo um caráter, a um só tempo cambiante e perseverante, como um padrão estético ondulante para nossas danças de tradição, como a danca do forró, na qual, de um único elemento nunca se abriu mão : o agarradinho, o bate-coxa, o mela-cueca, o esquenta-mulé que a estabelece como dança de contato sexual, de socialização sensualizada, contra-pontuada pelos meneios rodopiantes dos pares soltos pelos salões; um jogo de prende-desprende de alta tensão erótica entre o dançar colado e o plácido deslizar dos corpos soltos.

A dança do forró tem basicamente elaborado sua coreografia inspirada, seja nas melodias mornas das toadas românticas, seja no resfolego soluçante dos xaxados de letras provocantes . Tem sido, das danças brasileiras, a que mais faz dialogar, pelos pares em movimento, os sonhos de aconchego e gozo e os suspiros de carne em êxtase e de espírito em repouso: a danca do forró, em que a mão alcança a cintura de pilão da cabocla mais próxima e o pensamento voa até a cabocla tão distante “esperando na janela”, criando assim um pathos de sensualidade e lirismo que se espalha, como brasa de fogueira, pelo salão afora.


A festa

O ambiente do baile de forró vai desde uma pequena sala de uma casinha sertaneja, onde o fim de semana ou a data de aniversário propicia a reunião de alguns poucos pares para a dança, sob o som da sanfona, do triângulo e do zabumba, até o grande salão feericamente decorado e iluminado, down-town ou no subúrbio de alguma grande metrópole, ao som da banda elétrica e eclética que produz o divertimento dito pasteurizado da mega cultura pop globalizada dos nossos tempos pós-madernos.

O baile de forró acolhe desde um punhado de camponeses e camponesas dos canaviais pernambucanos em seus modestos ambientes ainda rurais ou semi-urbanizados até os milhares de jovens das classes médias mestiças da zona sul carioca ou da periferia paulistana, reunidos, aos milhares, para desfilar as indumentárias e gírias da moda, em situações de alta voltagem erótica e emocional, `a feição dos grandes rituais contemporâneos de tribos e gangues cosmopolitas das grandes metrópoles modernas de qualquer lugar do planeta .

O forró fez a longa viagem da tradição à invenção sem abrir mão das aléias de bandeirolas coloridas esvoaçantes sobre as cabeças dos dançarinos nos bailes de São João das grandes cidades do interior da Paraíba ou da Bahia; sem deixar, pelo caminho, os signos estéticos e culturais de suas matrizes sociais.

O forró traz a marca da estética antropofágica brasileira em sua forma mais alegre e mais feliz, deixando manifestar, em seu organismo, todo um mundo de contaminações, sem que venham a adoecer gravemente as células do seu velho corpo de passado e tradição. Ao contrario: fazendo de todos os venenos do presente pós-moderno, um coquetel de fortificantes para o corpo franzino mas esbelto e ágil da sua diversidade cultural, nossa diversidade cultural.


Rumo ao futuro

Como elemento característico de uma identidade nacional em permanente criar-se e recriar-se, formar-se e reformar-se, integrar-se e entregar-se, a vida cultural brasileira – já nascida sob os tons plurirradiantes de um sol de muitas luzes luso-afro-ameríndias e outros raios – nao habilitou-se a edificar edifícios inabaláveis e indestrutíveis como em outros lugares. A cultura brasileira, ao contrário de culturas antigas que lograram permanecer quase intactas por períodos muito longos, esteve, desde o começo, ao sabor de ventos leves, de brisas suaves que a levaram sempre para mais longe de um ancoradouro idealizado, de um porto seguro almejado. Como se Porto Seguro, o lugar de chegada do descobridor tivesse sido, de imediato, o lugar de saída do descoberto, de volta ao mar inseguro de um encoberto, desconhecido e indecifrável futuro cultural. Como se, logo de início, tivéssemos resultado de um lance poético de dados a nos impossibilitar, de vez, um devir de prosaicas verdades ; logo, de cara, um Monte Pascoal de novas imediatas saídas de volta para o Egito; logo, de cara, um monte de novos significados e nenhuma verdade; logo na chegada, uma volta aos mares orientais de Chinas e Indias pré-filosofais, uma volta a tempos glaciais de uma humanidade plena de passados e futuros eco(i)lógicos integrais. Logo na chegada, a saída para um eterno país do futuro que estaríamos fadados (sambados?) a ser.

Ao oferecer-se, generosamente, como entroncamento de linguagens musicais e de dialetos coreográficos que circulam pela nossa história cultural desde há muito, o forró representa uma das faces mais expressivas dessa “festa nossa de cada dia” que estreou nas praias de Porto Seguro.

Ao lado de outras de nossas matrizes lúdicas como o candomblé e o carnaval, o nosso forró de São João e de todo dia vai seguindo seu caminho, seu tão, eternamente imanente, jamais completamente expresso – o tão do baião a que um dia me referi numa canção – rumo às praias de um futuro aberto, o mesmo céu-aberto, fundo erguido sobre as cabeças de marinheiros e índios, de há pouco mais de cinco séculos, naquela praia inicial do litoral, da Bahia.




Leituras complementares
Alves,Bernardo: A Pré-Historia do Samba, Editora do Autor, 2002.
Vianna,Hermano: O Mistério do Samba, Jorge Zahar Editora, 1994.

Fonte: site oficial Gilberto Gil