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     MÚSICA

O Grupo dos Cinco


Por Luiz Lobo

Os românticos russos mais importantes ficaram conhecidos como O Grupo dos Cinco, mas na Rússia eram conhecidos como Mogutchaya Kutchke (Grupo Poderosos). Eles retomaram a tradição deixada por Glinka, criando uma música especificamente russa, deliberadamente diferente da música ocidental e inspirada no folclore do país, embora não conseguissem esquecer nem repudiar as influências de Schumann e Liszt.

Deixar para trás as normas e regras da música ocidental foi relativamente fácil, porque eram todos autodidatas. Diletantes na arte musical e com pouca base teórica. Seu nacionalismo foi intolerante mas havia uma dificuldade: não podiam colocar-se ao lado do Partido, os radicais que queriam ocidentalizar a Rússia para libertá-la do despotismo oriental dos czares.

Como os eslavófilos (com Dostoiesvsky à frente na literatura) tinham em comum o interesse pelo passado histórico da Rússia, pelos velhos costumes, pela tradição popular, o folclore e a Igreja Ortodoxa. Nenhum deles, ao que se sabe, participou de qualquer movimento revolucionário.

Se Glinka fora um patriota fiel ao Czar, os cinco seriam patriotas fiéis ao povo humilde, como os norodniki, intelectuais que abandonaram o conforto burguês para viverem com os pobres, com os camponeses e mendigos da cidade, difundindo entre eles o conhecimento, a razão, a esperança da libertação.

"Os Cinco são norodniki sem objetivos políticos", afirma Otto Maria Carpeaux.

O mais velho era Alexander Sergeievitch Dargomychky (1813 - 1869), que foi diretamente influenciado por Glinka. Foi autor de óperas italianizadas nas quais o elemento russo só é sobreposto como ornamento: Russalka (1856) e O Convidado de Pedra (1872) não tiveram sucesso. O público continuava esperando óperas à maneira de Verdi e Gounod.

Os comunistas da Rússia soviética sempre exageraram os méritos do compositor, considerado como "o pai da verdadeira música russa".

De César Antonovitch Cui (1835 - 1918) o que se pode dizer é que não tinha força criadora e que sua música não sobreviveu, embora chegasse a ser muito popular e muito executada, não só na Rússia, por sua animação, alegria e força expansiva.

A figura central do movimento nacionalista, no entanto, é Mily Alexeievitch Balakirev (1837 - 1910), fundador da Escola Livre de Música (em 1861), influenciado pelas idéias do grande romancista e crítico revolucionário Tchernichjevsky. Balakirev colecionou canções e ritmos populares e em 1886 publicou a famosa Canção dos Barqueiros do Rio Volga, sucesso imediato na Rússia, na Europa, no mundo.

Balakirev empregou o folclore musical russo com muito sucesso na sinfonia Rússia, de 1861, e foi o primeiro a se interessar e a divulgar a música dos povos orientais que habitavam a periferia da Rússia e que o fizeram escrever o poema musical Islamey, para piano (1863).

Sua maior obra, sem dúvida é o poema sinfônico Tâmara (1882) e, para os que imaginam que aquilo é folclore russo, uma informação: todos os temas e modos foram inventados por ele, "à maneira das melodias que o povo canta". Foi um grande sucesso.

Balakirev escreveu pouco e nunca se sentiu realizado como compositor.

Grande, na verdade, é Borodin, Alexander Porfirievitch Borodin (1834 - 1887). Era um médico militar, depois professor de Medicina na Universidade de Petersburgo r um conselheiro imperial. Músico autodidata, é autor de apenas três obras-primas: a Sinfonia nº 2 em si menor (1876), "a mais russa entre todas as obras instrumentais que saíram do Grupo", segundo Carpeaux, "superior a todas as outras sinfonias escritas na Rússia"; o Quarteto para cordas nº 1 em lá maior (1877), "a mais valiosa obra camerística de toda a música rusdsa"; e a ópera O Príncipe Igor (representada em 1890), da qual toda gente conhece, dos concertos, as Danças Polovetzianas (ou Polovetz).

A música de Borodin, com seu uso da dissonância, antecipa Debussy e suas complexidades rítmicas antecipam Ravel. Ele é muito original

Mas o gênio do Grupo foi Modest Petrovitch Mussorgsky (1839 - 1881). Como todos do Grupo, "um autodidata que nunca chegou a dominar as regras acadêmicas", segundo Carpeaux mas que, "por isso mesmo terve a liberdade de criar obra originalíssima".

Ele foi um oficial da Guarda Imperial mas logo demitiu-se para poder dedicar-se à música. Aceitou desempenhar funções subalternas na admi stração pública para sobreviver, miseravelmente.

Sofreu vários colapsos nervosos, tornou-se um alcoolista crônico, era homossexual e fetichista e morreu na miséria completa. No hospital militar de Petersburgo. Uma vida trágica.observa Carpeaux, "mas não perdida" porque Mussorgsky conseguiu realizar o que os outros apenas imaginaram e realizaram apenas em parte.

Seu pequeno poema sinfônico Uma Noite no Monte Calvo (de 1867) é um fascinante estudo orquestral de transfiguração musical de temas populares. Carpeaux diz que é "Gogol em música" e que, de tudo que escreveu, é "a melhor realizada".

Sua capacidade de pintar com sons permitiu que fizesse Quadros de uma Exposição (1873) inspirados em uma exposição de desenhos do arquiteto Viktor Hartmann e que entrou de imediato para o caderno dos melhores pianistas. Diz Carpeaux: "São peças poéticas, realistas, humorísticas ou patéticas, de linhas melódicas originalíssimas, ritmos irresistíveis, modos estranhos como saídos da memória atávica da gente russa". Mas é preciso advertir que só é autêntica a versão original, para piano, embora hoje seja muita mais ouvido o arranjo para orquestra, muito popular, feito por Maurice Ravel, uma obra brilhantíssima mas que é Ravel e não Mussurgsky.

A música ilustrativa de Mussorgsky não qurr competir com a literatura (como a de Berlioz, por exemplo). Ele pretende retratar a realidade e rejeita toda tentação de embelezá-la, quer a verdade.

Segundo Carpeaux, a oposição ao esteticismo dos italianos e dos românticos alemães levou-o a tentar superá-lo com o humorismo fantástico-grotesco. (à maneira de Gogol). Com um texto de Gogol, a propósito, ele escreveu uma ópera cômica, A Feira de Sorotchinzi, que deixou inacabada (e foi terminada em 12923 por Nikolai Tcherepnin). E escreveu a ópera O Casamento, inteiramente em prosa. Eram composições que interessavam à elite e aos intelectuais.

Até que assumiu o seu lado norodniki e foi ao encontro do povo. O primeiro fruto são os lieds, que têm nada a ver com os Schumann, são populistas e seu objetivo é o realismo perfeito: personagens estranhos mas verdadeiros, cantando histórias verdadeiras, revelando sua personalidade e história. Por isso mesmo assumem um aspecto dramático, até teatral, como o Hopak, do embriagado, ou o lamento do Seminarista.

Os quatro lieds do ciclo Canções e Danças da Morte (de 1875) são das suas obras mais perfeitas, sobretudo Trepak e O General. A melodia surge diretamente do ritmo das palavras faladas e a harmonização adota os modos da antiga música sacraslava, o que dá (pelo menos para os ouvidos ocidentais) um estranho sabor de coisa arcaica e exótica.

A harmonia sacra eslava, o ritmo falado, o populismo, o motivo permanente da morte e a força das tradições russas estão reunidas em Boris Gudonov, sua maior obra, na qual ele trabalhou de 1868 a 1874, reescrevendo e remodelando várias vezes. O resultado é a ópera nacional russa.

O enredo (o episódio mais trágico e mais enigmático da história russa) é tirado de uma tragédia do poeta nacional Puchkin. Os problemas religiosos e psicológicos que atormentam a alma do czar Boris Godunov são tipicamente russos. A coroação, o monólogo de Boris, a cena do relógio e a da morte do czar são de uma força e de uma profundidade dignas de Dostoievsky.. No terceiro ato, o dos invasores poloneses, a música é diferente, entre o modo parisiense e o modo italiano, exatamente para fortalecer o contraste com o efeito do nacionalismo agressivo. Como diz Carpeaux, "o grande papel atribuído aos coros e aos personagens populares transforma o gênero: Boris Gudonov é ópera de espécie nova, popujlar e realista". Realmente uma obra-prima singular.

O autor chegou a sr consideradoi louco e ignorante das regras elementares da composição musical. Depois da estréia, em 1874, em Petersburgo, Boris Gudonov caiu no esquecimento e só depois da morte de Mussorgsky entrou para o repertório russo e internacional, embora ainda cause estranheza.

Autodidata, sem uma forte educação musical, deve-se admitir que Mussorgsky nunca chegou a dominar completamente as regras da composição. Mas, para o crpitico, é difícil saber em que momentos ele não soube seguir a regra e em que momentos decidiu desconhecê-las deliberadamente. Autodidata e antiacadêmico por excelência, ele foi reescrito por um gênio: Rimsky-Korsakov. Sua versão e adaptação de Boris Gudonov retifica erros de Mussorgski, mas acaba por eliminar passagens originais, deliciosas e características. Hoje, a versão original, "bárbara" é a preferida do público, deixando para os músicos e críticos a versão de Rimsky-Korsakov. Que teve um mérito: venceu as resistências na Rússia, na Europa e fez da ópera o que ela é hoje e de Mussorgsky um dos mais importantes compositores da Rússia e do mundo.

Escrevendo sobre Mussorgsky, o crítico Mário de Andrade afirma que ele foi "uma das mais elevadas expressões artísticas do romantismo", chamando-o de "gênio possante que em suas obras resumiu a profundeza trágica, o humorismo sinistro, a alegria descabelada, o sentimento pueril, a barbárie incontida, a ingenuidade meiga, o satanismo, a inocência, toda essa multifária contrariedade a que nos acostumam os escritores e fatos históricos da Rússia.".

Depois dele, segundo Mário, a escola russa foi universalizada pela moda russa "que ridiculamente tomou o mundo desde a última década do século passado", (referindo-se ao século 19).



Fonte: www.tvebrasil.com.br/agrandemusica