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TEATRO
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UM ATOR NÃO É APENAS UM REPETIDOR DE FALAS
por Maurício Ayer
A Companhia do Latão faz do teatro um meio de provocar a reflexão sobre os
problemas políticos do país e dá novo ânimo à produção artística com
compromisso social
No saguão, um sino desperta a atenção de todos que ali aguardam. Uma mulher
abre a porta do teatro: ³A Companhia do Latão agradece a presença de todos.
Por favor, sigam-me². Entramos. À frente do palco há uma espécie de véu
branco. Passamos por ele e fomos convidados a sentar numa pequena
arquibancada montada sobre o fundo do palco. Damo-nos conta de que estamos
sobre o palco talvez indicando que somos todos atores (agentes) no
espetáculo que está para acontecer. Assim começa o Auto dos Bons Tratos, uma
minuciosa exposição das relações de poder num incipiente Brasil do século
16.
O espetáculo ³foi construído², segundo Sérgio de Carvalho, um dos diretores,
³como um aprendizado sobre o início do capitalismo que definiu os contornos
deste país². Isso revela o essencial do trabalho da Companhia do Latão,
aquilo que a diferencia no atual cenário do teatro nacional. Enquanto muitos
grupos investem nas emoções do público, procuram envolver as pessoas nos
dramas dos protagonistas, a Companhia do Latão faz do teatro um meio de
provocar a reflexão sobre os problemas políticos do país, compreender as
contradições do capitalismo, que condicionam os atos e as posturas de cada
indivíduo atores, público ou personagens. Essas contradições são
focalizadas, isoladas no palco, tornadas evidentes, sem ser resolvidas,
³porque no fundo sua resolução pede uma ação social coletiva, e não somente
ação estética individual², diz Sérgio.
Em 1996 a companhia montou seu primeiro espetáculo Ensaio para Danton
ainda com características de ³teatro de elenco, e foi antes um trabalho de
encenador interessado na coletivização dos meios de produção da cena que uma
experiência de invenção coletiva². O projeto coletivo, que identifica e dá
sentido ao grupo, veio logo depois, a partir de idéias surgidas nesse
processo, quando em 1998 o Latão venceu o edital de ocupação do Teatro de
Arena Eugênio Kusnet. Esse projeto, a um só tempo estético e político, é
levado às últimas conseqüências sobretudo no processo de criação, que é
radicalmente coletivo, avesso à especialização alienante. Um ator não é
apenas um repetidor de falas, mas também um criador e um agente político
pensante, participa da construção da dramaturgia e da encenação, da
composição das músicas, dos debates. Nesse sentido, a companhia considera
como o seu primeiro trabalho, com uma proposta mais clara de grupo, o Ensaio
sobre o Latão, baseado no ensaio A Compra do Latão, de Bertolt Brecht (donde
o nome da companhia). Além das montagens teatrais, o grupo publica a revista
Vintém (³teatro e pensamento político²), promove e participa de debates e
realiza oficinas.
Não por acaso, a companhia aproximou-se de diversos grupos populares
organizados. Desde 1999, mantém contato com o MST, apresentando suas peças
em encontros de integrantes do movimento e debatendo com eles. Sérgio de
Carvalho diz que "o diálogo com as platéias de sindicatos ou do movimento
social mais importante do Brasil, o MST, modificou nossos interesses no
teatro. Hoje estudamos tanto o teatro de intervenção política direta, como
as experiências estéticas mais radicais, aquelas que, sem deixar de tomar
partido crítico, apresentam a complexidade humana da vida popular". João
Pedro Stedile diz que eles "conseguem colocar a cultura e a arte a serviço
da conscientização de nossa sociedade".
As discussões também são levadas à universidade. Participar de festivais de
teatro universitário e de debates com críticos como Iná Camargo Costa e José
Antônio Pasta Jr., ambos professores da Letras/USP, é prática freqüente
entre os integrantes do grupo. Além disso, pesquisadores e pensadores da
cultura e da política brasileiras são abordados na revista Vintém.
Esteticamente, o grupo tem como principal referência o teatro épico do
dramaturgo alemão Bertolt Brecht. "Sua obra permanece até hoje para nós,
como um modelo, que portanto precisa ser atualizado, reinventado". Das peças
de Brecht, a companhia já montou Santa Joana dos Matadouros. Mas o principal
é que os membros do grupo partem de alguns princípios brechtianos ligados à
"aplicação do materialismo dialético (marxista) à forma teatral". Dentre
esses recursos, destacam-se a introdução de um olhar histórico na própria
peça, muitas vezes representado pela figura do narrador, e o uso de diversos
recursos de "distanciamento", que não permitem ao espectador envolver-se
emocionalmente a ponto de alienar-se de sua consciência crítica, de sua
atividade intelectual. Para Sérgio, esse "continua sendo o caminho mais
avançado de politização da cena".
O teatro de Brecht, como o da Cia. do Latão, lança-se para fora do palco.
Quando o dramaturgo alemão propõe romper a "quarta parede", quer também
derrubar a porta do teatro e eliminar o isolamento entre o "mundo mágico da
cena" e a "vida real". Não mais um teatro catártico (aristotélico, no dizer
de Brecht) que purga as angústias e faz o cidadão esquecer de seus problemas
e ser levado pelas aventuras e desventuras de heróis e heroínas. Em vez
disso, um teatro crítico, que tematiza os problemas sociais, a luta de
classes e propõe ao espectador problemas em vez de soluções. Um teatro que
procura expor a sociedade do avesso, mostrar suas vísceras, seu
funcionamento. Um teatro contra a hipocrisia.
A Companhia do Latão está comemorando um ano de ocupação do Teatro Cacilda
Becker, da prefeitura de São Paulo, com uma série de leituras dramáticas de
textos e adaptações de Brecht, Marx, Engels, Eisler, Márcio Marciano e
Sérgio de Carvalho, a partir de 28 de setembro. E há muito trabalho pela
frente. "Nosso próximo projeto pretende estudar a fabricação contemporânea
das imagens, na imprensa, nas mídias. Aquilo que se chama de Ocultura¹. As
ideologias disfarçadas em forma. De algum jeito, vamos tentar encenar a
Ocultura¹. Se isso é possível, vamos ver. Mas ao certo não é trabalho para
um espetáculo só, mas para muitos anos".
Pequeno Glossário
Bertolt Brecht (1898-1956) Dramaturgo e diretor alemão, formulador de uma
poética moderna de teatro épico e dialético, teatro de atuação política.
Distanciamento Nome dado por Brecht ao efeito obtido por recursos cênicos
que, sem eliminar a emoção, mantém vivo o espírito crítico de espectadores e
atores.
Quarta parede Parede imaginária situada em frente ao palco e que no teatro
realista isola metaforicamente os atores do público.
Teatro épico Forma teatral não-ilusionista, em que a crítica aos temas
abordados é incorporada à cena através de diversos recursos cênicos.
Teatro não-ilusionista Procura deixar transparecer sua teatralidade, i.e.,
em que, por exemplo, os atores mostram explicitamente que estão
representando, sem dar a entender que "encarnam" os personagens.
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